Luciano Aparecido Marques

O que a arte quer nos mostrar?

Começo o meu texto com uma pergunta, pois a complexidade e a subjetividade da palavra arte tornam muito difícil a definição sólida sobre o que ela seria ou a que ela se propõe. No entanto, quero arriscar um palpite pessoal sobre o assunto: penso na arte como expressão do intelecto humano e arriscaria dizer que o seu fim é o despertar de sentimentos internos individuais e (ou) coletivos por meio da expressão. Aproximo-me com isso da ideia dos intuicionistas, para quem a arte é criativa e específica, cognitiva e espiritual (WEITZ 1953).

Pensemos na estética em sua origem etimológica, ou seja, como sentido. Cada indivíduo quando exposto a uma obra de arte a entenderá de uma forma única, individual e especial e para tal utilizará seu próprios códigos e experiências. No entanto, há um paradoxo social nessa questão, pois, para alguns uma obra de arte pode ter significância absolutamente nula, enquanto para outros, principalmente para aqueles que puderam ter acúmulo de capital cultural (BOURDIEU 2000), essa mesma obra de arte passará a significar muito mais. Logo, o valor que arte tem diz respeito à apropriação cultural que cada indivíduo detém ao interpretá-la.

Analisemos agora a classificação do que é a obra de arte propriamente dita. O conceito de arte pode ser compreendido sob dois pontos de vista: o descritivo (quadro) e o valorativo (bonito), ou seja, ao declararmos que algo é uma obra de arte o fazemos apontando o objeto ou o seu valor (WEITZ 1953). Tendo em vista a ideia anterior, que critério podemos utilizar para escolhermos as obras de arte apresentadas a nossos alunos e como podemos ensiná-los a lê-las? Analisemos o trecho abaixo de Weitz:

“De facto, torna-se central na estética, para a nossa compreensão da arte, pois ensina-nos o que devemos procurar na arte e como devemos encarar o que encontramos na arte. O que é central e deve ser articulado em todas as teorias são os seus debates acerca da profundidade emocional, de verdades profundas, da beleza natural, da exatidão, da vivacidade de tratamento e assim por diante, como critério de avaliação – os quais convergem na direção do problema perene de saber o que torna uma obra de arte boa.”

Pois bem, ao selecionarmos as obras de arte a serem trabalhada durante as aulas é necessário que tenhamos como critério aquilo que o texto de Weitz cita, ou seja, de forma resumida, é necessário que a obra de arte abra caminhos para o debate acerca de temas caros ao ser humano enquanto ser individual e social.

Passemos agora a analisar a interpretação das obras a serem propostas. A leitura da imagem por parte do aluno a princípio tem um caráter mais emotivo do que cognitivo (SCHLICHTA 2009). A partir da proposta elaborada acima eu penso que as aulas de filosofia da arte e estética devem estar associadas a outras disciplinas e ao contato individual do aluno no tocante à sua percepção individual. Vejamos, por exemplo a forma que eu proponho abordar a obra de arte em sala de aula. Podemos fazê-lo de forma indutiva ou dedutiva. Se o fizermos da primeira forma estaremos induzindo o aluno a interpretar a obra com o aporte histórico e teórico, o que é importante, porém, eu prefiro começar a apresentação das obras sem contextualizá-las para que os alunos tenham suas próprias impressões, a principio sem contexto, pois dessa forma eu penso que a interpretação é mais genuína e, num segundo momento, o professor apresenta o aporte histórico e teórico para que o aluno, agora dispondo desse conhecimento possa interpretá-la de forma mais completa.

A arte trabalha com diversos temas e são eles que mais me chamam a atenção. Ao contemplarmos um quadro dramático como “O Grito” de Van Gogh, mesmo sem ter estudado seus meandros históricos ou estéticos, muito provavelmente experimentaremos um certo sentimento de angústia advindo da imagem, de modo que acredito que a interpretação espontânea da obra deve ser um ponto de partida para compreendê-la.

 As obras com que trabalhei nos meus projetos de aula expressam diversos temas filosóficos como: o nascimento, a morte, a velhice, o belo e o sublime. O objetivo maior de trabalhar com as obras de arte é ensinar o aluno a lê-las além da aparência meramente emotiva, uma vez que a consciência estética não é inata, mas deve ser trabalhada na escola (SCHLICHTA 2009). Por fim, a arte pode servir para ensinar e inspirar os educandos levando-os a compreender e re-significar o complexo mundo que conhecemos e reinventamos a cada fase da vida.

Bibliografia

WEITZ, Morris. O Papel da Teoria na Estética. “In The Journal of Aesthetics and Criticism”, XV (1958), 27-35. Tradução: Célia Teixeira.

SCHLICHTA, Alcioni B. D. Ensino da Arte, Formação dos Sentidos E Leitura da Imagem: Reflexões Sobre o que Parece Explicado. Departamentos de Artes – SCHLA – UFPR. Educação e Doutora em História – UFPR.

BOURDIEU, P. A Economia das Trocas Simbólicas. 5º ed. São Paulo: Perspectiva, 1999.

Filosofia: estética e política, volume 3 / organizadores Marcelo Carvalho, Gabriele Cornelli. – Cuiabá MT: Central de texto 2013. SAFATLE, Vladimir. Uma arqueologia do modernismo: para introduzir o problema da autonomia na obra de arte. Artigo: página 177. RUFINONI, Priscila Rossinetti. Estética como filosofia da arte: sobre a mimeses. Artigo: página 161.

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