A filosofia se debruça sobre a arte por meio do estudo da estética. A palavra estética é oriunda do grego “aisthê”, que significa: que tem a faculdade de sentir e compreender; que pode ser compreendido pelos sentidos, de acordo com o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado (4º ed., vol. II, Lisboa, Livros Horizonte, 1987). A arte desperta, dentre outras coisas, emoções, sentimentos e desejos no indivíduo que se conecta a ela, seja como criador ou contemplador. O autor Miguel de Unamuno, em seu livro “Do Sentimento Trágico da Vida” afirma:

Diz-se que o homem é um animal racional. Não sei por que não foi dito que é um animal afetivo ou sentimental. Talvez seja o sentimento e não a razão que o diferencie de outros animais. Vi mais vezes um gato raciocinar do que rir ou chorar. Talvez chore ou ria por dentro, mas talvez também o caranguejo resolva equações do segundo grau.

Que o homem de fato é um animal afetivo ou sentimental não temos dúvidas, mas fica outra pergunta no ar: qual é a utilidade da arte? Seria ela a busca pelo belo? Ou seria a manifestação de sentimentos internos? Pois bem, vejamos o que o escritor Oscar Wilde afirma em seu clássico O Retrato de Dorian Gray:

“Pode-se perdoar um homem o fazer uma coisa útil, enquanto ele a não admira. A única desculpa que merece quem faz uma coisa inútil é admirá-la intensamente.

Toda a arte é absolutamente inútil.”

Para o autor a arte é inútil enquanto bem material, mas é útil enquanto obra digna de admiração. Ora, esse anseio por compreender a admiração que temos pela arte e suas implicações ocorre desde a antiguidade clássica. Vejamos um pequeno esboço histórico sobre o assunto.

Em primeiro lugar é importante ressaltar que um dos pontos primordiais do debate sobre a arte era exatamente a prática da mimese, enquanto imitação ou representação da natureza.

Comecemos a análise com Platão, que em seu diálogo intitulado Hípias Maior trata do belo quando questiona se o artista ao imitar a natureza o faz em essência, ou apenas imita a ideia da beleza que antecede a natureza? Ao tratar o tema, o autor questiona:

“[…] a que fim se propõe o pintor em cada caso particular: imitar as coisas como são em si mesmas, ou sua aparência?

Da aparência.

Logo, a arte de imitar está muito afastada da verdade […]”

Vemos neste diálogo entre os personagens Sócrates e Hípias a ideia platônica da arte como obra inferior que poderia inclusive afastar o sábio da verdade.

Para Aristóteles, no entanto, a arte enquanto mimese, ou seja, enquanto imitação da realidade, não a reproduz, mas a recria num processo de verossimilhança que, para o filósofo, é parte natural do ser humano, que pratica o processo de imitação desde tenra idade quando imita a linguagem e seus meandros.

Se dermos um salto da antiguidade clássica até o Romantismo do século XVIII, poderemos perceber que a arte não repousará mais na cópia e reprodução de modelos artísticos reconhecidos, tais como a estrutura rígida da métrica dos poemas como: sonetos, barcarolas, versos alexandrinos, dentre outros. Neste período a arte passa a ser compreendida como fruto da inspiração individual. A expressão romântica é uma espécie de antecâmara para compreendermos a forma modernista (SAFATLE).

O modernismo preferiu compreender a arte “fiel ao seu conteúdo de verdade” e identificá-la com impessoalidade ao invés de utilizar a primeira pessoa. (SAFATLE)

Por fim, cabe citar o papel da filosofia enquanto questionadora e por que não até certo ponto produtora de arte. O filósofo Miguel de Unamuno no livro já citado ressalta:

Corresponde-nos dizer ante se mais nada que a filosofia se inclina mais para a poesia do que para a ciência.

Luciano Aparecido Marques

Bibliografia.

Filosofia: estética e política, volume 3 / organizadores Marcelo Carvalho, Gabriele Cornelli. – Cuiabá MT: Central de texto 2013. SAFATLE, Vladimir. Uma arqueologia do modernismo: para introduzir o problema da autonomia na obra de arte. Artigo: página 177. RUFINONI, Priscila Rossinetti. Estética como filosofia da arte: sobre a mimeses. Artigo: página 161.

Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado (4º ed., vol. II, Lisboa, Livros Horizonte, 1987).

UNAMONO, Miguel de. Do sentimento trágico da vida. São Paulo: Hedra 2013.

Wilde, Oscar. O Retrato de Dorian Gray. Tradução: Januário Leite. 2013, Centaur Editions.

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