Tolkien, poesia e Terra Média.

“No princípio Deus criou o céu e a terra… E disse Deus: ‘Faça-se a luz’ e assim se fez…” Para a cultura judaico-cristã esse texto demonstra o poder criador de Deus, que se dá pela palavra. Segundo a tradição, a palavra de Deus é capaz de criar as coisas simplesmente do nada.

Podemos afirmar com precisão que o mesmo valor mítico ocorre na mitologia criada por J. R. R. Tolkien, porém, não é a palavra de Deus que cria, mas a canção dos Ainur, cujo tema fora composto por Ilúvatar o grande criador.

Ora, se a canção é a responsável pela criação da Terra Média, é completamente razoável crer que o autor de o Senhor dos Anéis tenha se preocupado com a elaboração das canções entoadas por diversas raças no decorrer da narrativa. O próprio autor cita em uma de suas cartas:

“It is not possible even at great length to ‘pot’ The Lord of The Rings in a paragraph or two…..It was began in 1936, and every part has been written many times. Hardly a word in its 600,000 or more has been unconsidered. And the placing, size, style, and contribution to the whole of all the features, incidents and chapters have been laboriously pondered”. (The letters of JRR Tolkien, 1951 p. 160)

Um leitor atento logo percebe que a narrativa de Tolkien não aspira apenas o contar a história cronologicamente, mas o faz permitindo espaço para a poesia, que por sua vez evoca versos que rememoram tempos de outrora e fazem eclodir nomes de eras anteriores, muitas vezes desconhecidas até mesmo por aqueles que a entoam. No entanto, existe uma raça capaz de entoar suas canções e relembrar dos fatos nelas expostos, a raça dos eternos elfos.

É de pleno conhecimento que Tolkien foi um filólogo respeitado e que escreveu uma crítica muito importante acerca do poema “Beowulf”, e inclusive até o traduziu e explicitou sua tradução no texto “On translating Beowulf”.

O fato é: até que ponto Beowulf teria influenciado Tolkien ao escrever as canções élficas? Teria Tolkien criado uma unidade métrica ao escrever as canções élficas? Teria o poema anglo-saxão servido de escopo para a forma das canções? São essas perguntas que o presente artigo procura responder de modo sucinto.

A escansão do verso inglês

O modelo inglês de escansão tem como unidade métrica do verso o “pé”. Os pés são classificados de acordo com sons fortes e fracos. Estes sons podem ser identificados pela tonicidade da palavra, portanto palavras como “water, piece, cake’ possuem um som forte outro fraco ao passo que “upon, ago, agree” possuem um som fraco outro forte. Ao primeiro modelo chamamos de jâmbico ao segundo de trocaico. Esses são apenas exemplos dos quatro tipos de pés encontrados nos versos de língua inglesa.

Os pés não são classificados a partir de palavras isoladas, mas por unidades métricas que seguem um padrão no interior do verso. Para fazermos a escansão determinamos e marcamos os sons fortes com barras (/) e fracos com pontos (.), depois identificamos o padrão que forma o pé e o separamos por barras verticais (|), por exemplo:

[…]

.    /       .   /       .   /    .  /

O El | bereth,| Giltho|niel

.      /        .     /      .        /      .      /

We still | remem| ber, we | who dwell

.    /      .     /       .    /         .      /

In this| far land| beneath| the trees,

.          /    .     /     .        /       .      /

Thy star| light on| the Wes| tern Seas

(The Lord of the Rings, 1954, p.79)

Os quatro tipos de pés usados como norma no verso inglês são:

Iambic: e.g. the cold (./) ; trochaic: e.g. where the(/ .); anapestic: e.g. on the sea (../); dactylic: e.g. thickening (/..) O metro jâmbico é de longe o mais usado na língua inglesa e o dactílico o mais raro. (Beum., p. 27).

As canções élficas

No “Silmarillion” o narrador relata o fato de que os elfos já começam suas vidas na terra média como um povo afeito ao canto e a linguagem:

“Muito tempo viveram eles em seu primeiro lar junto à água, à luz das estrelas, e caminhavam pela Terra maravilhados. E começaram a criar a fala e dar nomes a todas as coisas que percebiam.[…] E uma vez aconteceu de Oromë cavalgar mais para o leste em sua caçada […] Pareceu-lhe ouvir ao longe, no silêncio da terra sob as estrelas, o canto de muitas vozes”. (O Silmarillion, p. 47 e 48)

Comecemos a analisar de fato algumas canções élficas da terra média.

    .         /           .         /             .     /    .      /  

Snow/-white! | /Snow/-white! | O /La | dy /clear!

.      /         .     /      .       /     .       /

O Queen| beyond| the Wes|tern Seas

.      /    .   /    .       /     .     /

O light| to us| that wan|der here

.   /       .       /       .    /     .       /

Amid| the world| of wo| ven trees!  

(The Lord of the Rings, 1954, p.79)

A primeira estrofe da canção acima pode ser facilmente classificada como um tetrâmetro jâmbico. Vejamos um trecho de outra canção intitulada Gil-galad, que apresenta a mesma estrutura métrica.

.     /      .      /      .     /    .    /

Gil-ga| lad was| an Elven-King

.     /        .     /        .     /          /

Of him| the har| pers sadly| sing:

.          /        .          /        .     /        .      /

The hast| whose realm| was fair| and free

.       /         .       /       .        /      .     /

Between| the Moun| tains and| the Sea

(Ibid., p.185)

O cuidado de Tolkien com a métrica, principalmente com os sons não é por acaso, o próprio autor em uma de suas cartas declara:

“It must be emphasized that this process of invention was/ is a private enterprise undertaken to give pleasure to myself by giving expression to my personal linguistic ‘aesthetic’ or taste and its fluctuations. […] The ‘source’, if any, provided solely the sound-sequence (or suggestions for its stimulus) and its purport in the source is totally irrelevant except in case of Earendil;” […] (The Letters of Tolkien, p. 359)

No entanto, não podemos esquecer de que Tolkien criou vários idiomas para cada povo da terra média, dentre os quais estão: Quenya ou Alto Élfico, língua dos Noldor. Sindarin, língua derivada do Quenya e falada pelos elfos cinzentos; o Khuzdul, língua falada pelos anões; a língua negra, falada por Sauron e seus vassalos; Westron ou fala comum, língua compartilhada por muitos grupos como segundo idioma e representada pelo inglês. Observemos a escansão de um trecho da canção “Gilthoniel” em Sindarin:

.    /     .   /       .    /    .  /

A El| bereth/ Giltho/ niel

.      /     .    /      .    /   .  /

O me| nel Pa| lan-di| riel,

.     /     .     /     .    /     .    /

Le na| llon si| di’ngu| ruthos!

.   /  .    /     .   /     .  /

A ti| ro nin|, Fanu| ilos

(Ibid., p. 79)

Mesmo em Sindarin, podemos perceber por meio da escansão que Tolkien adota o tetrâmetro jâmbico como versificação. No entanto não é possível afirmar que todas as canções élficas possuem este padrão, uma vez que algumas provêm do Sindarin outras do Quenya. Sendo assim, observemos o trecho a seguir com sua respectiva escansão:

.         /         .        /        .       /         .         /    

The leaves| were long,| the Grass| was Green,

.         /        .         /          /       .     /

The hem| lock-umbels,| tall| and fair,

.      /     .       /       .    /      .        /

And in| the glade| a light| was seen

.      /       .     /      .      /         .    /

Of stars| in sha| dow shim| mering.

[…]                                                    

/         .     .      /        .     /    .    /        /

Long was the way| that fa|te them| bore,

.         /           .     /          /      .      /

O’er stony| mountains| cold| and grey,

  .            /        .    /      .          /           /

Through halls| of iron| and darkling| door,

.          /        .    /        .         /       .     /

And woods| of nigh|tshade mo| rrowless.

[…]

.   .        /           /          /

In the forest| singing| sorrowless

(Ibid., p. 191)

Na canção acima, há uma tentativa de apresentar um padrão na escansão, porém, o poema carece desse padrão, de modo que o próprio personagem declara:

“That is a song in the mode that is called ann-thennath among the Elves, but is hard to render in Common Speech, and this is but a rough echo of it.” (Ibid., p. 193)

Portanto, é possível afirmar com segurança que JRR Tolkien se preocupou em criar um padrão estético nas canções élficas, todavia, o próprio autor não nos revela claramente que padrão é este, citando apenas o nome deste estilo que é “ann-thennath”. Podemos, no entanto, por meio da escansão, afirmar que as canções élficas produzidas no idioma Westron, que por sua vez é traduzido para o inglês, seguem como padrão de versificação o tetrâmetro jâmbico. Vejamos a seguir se é possível traçar um parâmetro entre essa versificação e o modelo anglo-saxão.

Métrica anglo-saxônica

O verso anglo-saxão é basicamente composto por duas partes, dois grupos de palavras compostos por sílabas fortes e fracas. As sílabas fortes são chamadas “lifts” e as fracas “dips”. O próprio Tolkien em seu ensaio “On translating Beowulf” explica e classifica os tipos de versos. De acordo com o autor o verso anglo-saxônico segue seis padrões:

A          falling-falling                 : Kníghts in | ármour

B          rising-rising                   : the roar|ing séa

C          clashing                       : on high| móuntains.

D         a) falling by stages:      : bright | archangels

E          b) broken fall                : híghcrèsted | hélms

(On translating Beowulf, p. 62)

Vejamos o trecho de Beowulf com a escansão e tradução de Tolkien:

210       E          Tíme pàssed a| wáy.                 On the tíde| floated       A

B          Under bánk| their boat.             In the bóws| mounted    C

A+        Bráve men| blíthely.                  Bréakers| turning          A

A          Spúrned the| Shíngle.                Spléndid| armor            A

(Ibid., p. 63)

As letras que antecedem e sucedem os versos indicam um dos seis padrões explicitados acima, enquanto que o acento agudo indica a sílaba tônica e o acento grave uma sílaba tônica subordinada à primeira.

Outra característica importante do verso anglo-saxão é a aliteração, que independe da letra, porém depende do som para ocorrer. Tolkien explica a ideia da seguinte maneira:

Alliteration in this metre is the agreement of the stressed elements in the beginning with the same consonant, or in the beginning with no consonant. All words beginning with a stressed vowel of any quality ‘alliterate’, as old with eager.

(Ibid., p. 66)

Por fim, os poemas anglo-saxônicos continham “kennings”, que são palavras compostas que se referem a um único vocábulo, por exemplo, ao se referir à palavra mar, o poeta poderia escrever “caminho da baleia” ou “lar das ostras”. O poeta geralmente utilizava “kennings” para ajustá-las à métrica do poema. Observe abaixo o que Tolkien escreve sobre essa técnica:

“In this class, sometimes called by the Icelandic name ‘kenning’ (description), the compound offers a partial and often imaginative or fanciful description of a thing, and the poets may use it instead of the normal ‘name’”. (Ibid., p.59)

Passemos, portanto, à análise das canções élficas comparando-as com a estrutura métrica anglo-saxônica. Em primeiro lugar temos de levar em consideração que a métrica élfica tem como estrutura dois blocos de palavras tal como podemos observar nos trechos de Beowulf, cuja tradução é do próprio Tolkien:

210 Fýrst fórð gewàt.    Flóta wæs on yðum

210 Time on departed   Was on Ws

(Ibid., 68, 69)

Observe que Tolkien se preocupa em traduzir o verso mantendo a mesma métrica. As canções épicas tais como analisadas no início deste artigo não seguem esta estrutura, tendo em sua grande maioria o metro tetrâmetro jâmbico. Quanto à aliteração, as canções possuem algumas delas, no entanto, elas são acidentais não se constituindo um padrão obrigatório. O verso a seguir é um exemplo:

Amid the world of woven trees. (The Lord of the Rings, p. 79)

Esta aliteração não é padrão nos poemas élficos de “O Senhor dos Anéis”.

Quanto ao uso de “Kennings”, ele é mais comum nas canções, embora não seja um padrão. Observe os versos a seguir:

Snow-white, Snow-white Oh Lady clear. (Ibid. p.79)

As palavras “Snow-white” referem-se à Varda, uma das Valier de Arda.

Considerações Finais

Que Tolkien foi um catedrático importante não se pode negar, porém o seu gosto pela poesia, o cuidado com a maestria na construção de sua obra principal, “O Senhor dos Anéis” e a busca pela beleza estética ao construir uma mitologia e diversas línguas trazendo este tom mítico em que cada palavra remonta a eras antigas e cada nome próprio constitui uma saga, isso é irresistivelmente um fato inexorável.

Fazer a escansão dos poemas e buscar uma linha crítica nos ditames tradicionais foi o que busquei ao escrever esse artigo. A forma me encanta muito, embora o conteúdo da poesia Tolkieniana seja também repleto de beleza.

Ao criar uma obra o artista o faz para que o público se deleite. Alguns artistas conseguem fazê-lo unindo a forma ao conteúdo, outros, ora priorizam um assunto, ora outro. No entanto, a meu ver, Tolkien se encontra no rol daqueles que conseguem muito bem unir as duas coisas. Finalizo utilizando as palavras do próprio escritor:

“If he has to tackle such a word as holy, the old-fashioned philologist (such as I AM) looks first at the history of form. According to rules laboriously elaborated (and I think certainly valid within limits) he will say what it is probably formally related to. But he cannot wholly escape the quicksand of semantics. Before he proposes a relationship (that is an actual historical nexus of change) between holy and other words in the same language (or in other believed to be related to English) he will want both a phonologically possible kinship, and some ‘possible kinship’ in sense.”

(The letters of JRR Tolkien, p. 269

  1. Referências

TOLKIEN, John R. R. The Lord of The Rings. Published in Great Britain by Harper Collins Publisher 2004.

_______________. The Silmarillion. Published by Harper Collins Publisher 2007.

_______________. Edited by CARPENTER, Humphrey. The Letters of J.R.R. Tolkien. Houghton Mifflin Harcourt Publishing Company, first published in 1995. Boston – New York.

_______________. The monsters and the Critics and other essays. Published by Harper Collins Publishers 2006.

_______________. O Silmarilion. 5º ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

SIMPSON, James and DAVID, Alfred. The Norton Anthology English Literature: The Middle Ages. W.W. Norton & Company – 2012. 9th Edition.

SHAPIRO, Karl and BEUM, Robert. The Prosody Handbook. (E-book) Originally published: New York, Harper & Row, [1965]

TAVARES, Hênio Último da Cunha. Teoria Literária. Belo Horizonte, MG. Ed. Itatiaia 2002.

LÓPEZ, Rosa Sílvia. O Senhor dos anéis e & Tolkien: o poder mágico da palavra. São Paulo: Devir: Arte e Ciência, 2004.

4 comentários em “Um pouco de Literatura.

  1. Sensacional Luciano!
    A língua e a linguagem , realmente constrói realidades, mundos e respectivas, além de desenvolverem camadas mais altas da nossa inteligência humana.
    Só senti falta , da tradução de alguns tópicos e me dei conta que um poliglota tem acesso a vários mundos e formas !!! Parabéns e obrigado por postar!!! Um forte abraço.

    Curtido por 1 pessoa

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