Luciano Aparecido Marques

A filosofia tem sido há séculos uma área de saber que contempla o questionamento e a construção de ideias pautadas em problemáticas, que por sua vez se atualizam, à medida que o mundo se reinventa, ou, por vezes copia o que outros já produziram, no entanto, trazendo nova roupagem e com isso novos problemas. A questão, pois, é saber se é possível ensinar ou até mesmo aprender esse conhecimento.

Tomemos como ponto de partida um trecho de uma das antinomias problematizadas por Derrida e elucidada pelo autor Walter Omar Kohan no texto “Antinomias para pensar o ensino da filosofia”:

[…] toda a prática de ensino da filosofia está submetida ao mesmo tempo à necessidade e impossibilidade de afirmar um método filosófico. Em outras palavras todo o ensino de filosofia precisa seguir um método e, na mesma medida em que segue um método, afirma um caráter anti-filosófico nessa prática.

Se pensarmos que a filosofia é pautada antes no ato de filosofar em relação à própria área do saber, podemos e devemos questionar se é possível fazê-lo por meio de um método, e é exatamente essa proposição que o trecho acima procura responder. Pois bem, como professores de filosofia, é razoável pensarmos que não podemos sistematizar o ato de filosofar e reduzi-lo a ações pautadas em determinados temas, em primeiro lugar porque ao fazê-lo podemos transmitir aos alunos a ideia de que o filosofar só ocorre quando tratamos de determinados assuntos, com isso limitando a própria filosofia, e em segundo lugar, podemos tratar o aspecto do filosofar de forma doutrinária ao invés de problematizá-la.

Uma possível solução para a tentação de cairmos na armadilha de doutrinar, ao invés de problematizar é partirmos do ideário e das necessidades dos alunos, bem como de suas realidades. Conforme afirma “Alejandro A. Cerletti no texto “A formação do docente no ensino de filosofia” ao tratar da formação docente:

[…] Dizemos, então, que a filosofia, mais do que um saber, é uma relação com o saber. E essa relação se singulariza em cada pessoa que filosofa, que realiza a atividade de aspirar a alcançar o saber, indagando e tentando responder (e responder-se) as interrogações que lhe são significativas[…]

É de extrema importância e até urgência que, enquanto professores, sejamos sensíveis o bastante para sabermos que a problemática ou o tema propostos em uma determinada aula podem simplesmente não significar nada ao aluno que ouve e observa atentamente ao professor, pelo menos não até aquele dado momento. Isso não significa de modo algum que devamos tratar apenas de temas que interessem aos alunos, no entanto se não partirmos de suas realidades, talvez sejamos incapazes de despertar e até aprimorar o ato de filosofar em seu dia a dia.

Uma questão inerente às aulas de filosofia, além do método e de “não raro, sua subversão já tratados anteriormente é a questão dos conceitos. Segundo o professor Silvio Gallo, no texto “O ensino da filosofia e o pensamento conceitual”:

[…] O conceito é, pois, uma forma racional de equacionar um problema ou problemas, exprimindo uma visão coerente do vivido. Não é abstrato nem transcendente, mas imanente, uma vez que parte necessariamente de problemas experimentados. […]

Se nos debruçarmos mais atentamente à ideia de conceito proposta por Silvio Gallo, logo essa mesma premissa implica na construção e discussão de conceitos trabalhados em sala de aula.

No livro “O mestre ignorante” de Jacques Rancière, o personagem, professor Joseph Jacotot pressupõe a ignorância de seus alunos e encontra a sua própria ignorância. Se partirmos do próprio conceito para atingirmos a reflexão do tema proposto em sala de aula, sem que haja uma sondagem prévia com relação ao conhecimento dos alunos, podemos cair na armadilha de trabalharmos um tema no qual já se houve um esgotamento de discussões ou um tema que ultrapassa a compreensão do aluno dada a sua realidade. Explico-me. É possível levantar a temática da ética política sem com isso inflar ainda mais o ressentimento e, por vezes, aplacar a repulsa que muitos alunos possuem por esse tema, quando o universalizamos. E como podemos fazê-lo? Ora, se partirmos do pressuposto que a Ética, com letra maiúscula mesmo, é um dos conceitos mais antigos da filosofia grega, é possível inferir que esse conceito, embora não compreensível no mesmo nível, ou da mesma forma, é parte inerente do questionamento humano, tais como Amor, Moral, Razão, dentre outros.

Por fim, o discurso filosófico tem sua forma mais específica na produção dos filósofos, enquanto mestres de seu próprio ofício, no entanto, outras áreas do saber também corroboram a mesma natureza questionadora da filosofia, fazendo uso de outras linguagens e formas, tais como as artes, a ciência e as religiões, de modo que, ao ensinar filosofia não o fazemos apenas na exposição das ideias dos clássicos ou do uso do cânon, todavia, o fazemos por meio do despertar questionador que cada um já encerra dentro de si e mais importante ainda, o fazemos por meio de duas ferramentas que, segundo o autor Gonzalo Armijos são partes inerentes da disciplina filosófica: o próprio pensar e o diálogo.

Referências

CORNELLI, Gabriele. CARVALHO, Marcelo. Filosofia e formação, volume 1 /organizadores. – Cuiabá, MT : Central de Texto, 2013.

Artigos

CERLETTI, Alejandro. A formação docente no ensino de filosofia.

KOHAN, Walter. Antinomias para pensar o ensino de filosofia.

ARMIJOS, Gonzalo. O ensino da filosofia e a “situação-problema”. 

GALLO, Silvio. O ensino da filosofia e o pensamento conceitual.

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