Causalidade

“It is a natural Law that like causes always produce like effects”.

Wallace D. Wattles in “The Science of Getting Rich”.

A tarde estava nublada. No saguão do hotel havia uma multidão de pessoas. Algumas passavam pela porta da recepção, outras saiam pelo elevador e algumas chegavam pelas escadas. Não importa como, mas elas brotavam de todos os cantos imagináveis e inimagináveis. À esquerda havia a recepção com suas espirais para organizar a fila.

Foram seis envolvidos no estranho caso do Hotel Portucalence, no centro da Cidade de São Paulo. Tentarei tecer a linha de raciocínio da descrição de cada indivíduo da forma mais lógica possível, para que a ti, leitor, os fatos não pareçam meras coincidências casuais, mas fatalidades causais.

Tonhão

Antônio Carlos. Nome comum no Brasil. Antônio vem do Latim Antonius que significa aquele que tem valor, Carlos por sua vez é palavra germânica que significa homem do povo e vem da palavra Karl. Nosso Antônio, no entanto, não fazia jus a nenhuma das etimologias acima, em primeiro lugar, porque era indivíduo de si mesmo. Não era de modo algum do povo, uma vez que vivia intrincado dentro de si pensando ser o dono da verdade. Guiava a vida como se existisse apenas ele no planeta.

Em segundo lugar, o nosso Carlos, machão, pinguço, espancador de mulheres, estava longe de ser valoroso pelos próprios adjetivos e locuções adjetivas citados. Em uma coisa era bom: dirigir seu caminhão.

Era quase um piloto, principalmente quando não estava bêbado, o que era raro. Naquela manhã batera em sua esposa Noêmia devido ao mesmo ciúme descabido de sempre. Depois tomou duas doses de pinga, aquela com carqueja que guardava no armarinho da cozinha, e partiu para a entrega da carga de carnes na Lapa.

 Não sei por que cargas d’água, Antônio foi parar na Avenida Paulista naquela tarde. Estava puto da vida e culpava o GPS. Precisava encontrar um retorno, mas sua estupidez o fez encontrar Bernadete.

Bernadete

Quem já teve a oportunidade de apreciar a pintura intitulada “Cupido e Psique”, do pintor francês William Adolphe Bouguereau, e se atentou ao rostinho delicado de Psique, vai ter a descrição exata de Bernadete. Menina lindíssima de sete aninhos. Cabelo loiro, todo enrolado. Filha do policial aposentado, Sr. Estevez e da dona de casa, Margarida, que por sinal a tratava com indiferença, saberemos o porquê à posteriori.

A menina era amada pelo pai de forma incondicional. Sua fragilidade devido ao saturnismo inato deixava-o mais alerta do que o comum e por conta desta doença, o amor se multiplicava a cada dia.

A menina adorava passarinhos. Os pais estavam em São Paulo para visitar o Jardim Botânico, que no verão recebe diversas espécies de aves e é um período propício para praticar a observação de aves.

Sua paixão vinha das aulas de ciências da professora Clara. Era a única que trabalhava com o intuito de incluí-la na turma. Para isso preparara uma cartilha com todas as espécies de animais, dos quais Bernadete preferia as aves. Foi seu amor que causou a sua morte.

Sr. Estevez

O soldado de 50 anos era aposentado não por idade, mas por invalidez. Era um sujeito desses os quais se irritam até com o barulho do vento. Fora proibido de portar armas. Havia dois remédios para a sua vida complexa: Bernadete e os antidepressivos. Tinha pesadelos que o perseguiam todas as noites. As imagens recorrentes eram daquela noite em que um menino de oito anos morrera com uma bala perdida no peito. O cadete colocara na cabeça desde então que a bala saíra de sua arma. A partir deste fato afastou-se e quando a balística provou que a bala, de fato, viera de sua arma, foi proibido de portar armas. No entanto, com a ajuda do delegado doutor André conseguiu aposentar-se.

Sr. Estevez não tinha um bom relacionamento com a esposa, mas não queria o divórcio devido ao futuro de Bernadete. Devido à bateria de comprimidos que tinha de tomar, seu coração vivia acelerado.

Vocês saberão que no estopim do acidente, não hesitou em disparar a arma que portava às escondidas. Disparou-a tão rápido quanto o próprio coração.

Margarida

Apenas o nome era de flor, porque o temperamento de Margarida era o mesmo do demônio da Tasmânia, iracundo ao extremo. Era dessas mulheres sonhadoras que sofriam de bovarismo. Sonhava em ser madame e adorava o falso glamour que a TV e seus personagens transmitiam.

Vivia à moda de Madame Bovary, a única diferença é que não traía o marido em atos, no entanto, em palavras e pensamento era perita em fazê-lo.

Sempre quisera um filho menino. Tinha até o nome, Allan Figueiredo de Souza. Ela mesma era Figueiredo e fazia questão que o sobrenome da família estivesse no nome dos filhos.

Já no terceiro ultrassom do pré-natal, quando ficou sabendo que seu bebê seria uma menina, ficou tão decepcionada que tentou abortá-la, mas por força desconhecida a menina nascera com 4 quilos e 54 cm.

Estevez não sabia da tentativa do aborto, a única coisa que o intrigara era o fato de saber que a doença da filha era excesso de chumbo no sangue, fato que, segundo o médico seria abuso do contato com tal mineral ou uso de medicamentos proibidos durante a gravidez, mas Margarida não tomava remédios e muito menos mantinha contato com chumbo até aonde ele sabia. A única resolução lógica seria uma doença hereditária.

Por fim, Margarida cuidava da menina com aquela indiferença. Certa vez, Bernadete engasgou com a comida que a mãe lhe dava e ficou incapacitada de respirar. Estevez percebeu de longe o rostinho de angústia da menina e correu para socorrê-la. Chegou até a fazer respiração boca a boca. Depois do susto, concluiu que a mulher só poderia estar doente por não ter percebido o ocorrido.

Margarida, no entanto, não só percebera a angústia da filha como a ignorou completamente. Essa mesma indiferença a fez perder a filha para sempre.

Cezar

Já havia cinco anos que Cezar trabalhava no hotel. O rapaz de trinta e cinco anos, magro, alto e bem asseado era competente até demais. Seu perfeccionismo insuportável o fez atingir a posição de gerente da recepção em menos de dois anos.

Era poliglota e já viajara ao redor do mundo. Todos o respeitavam. Foi ele quem autorizou a estada do biólogo e professor Silva com o seu tucano enjaulado por dois dias. Era proibido, mas na posição em que se encontrava, abriu uma exceção ao professor e amigo de colégio. Sua transgressão contribuiu para a morte de uma criança inocente.

Silva

Silva já vinha estudando o comportamento dos tucanos por mais de três anos e meio. Era parte de sua tese de mestrado, que estava concluindo em Pernambuco, na Universidade Federal. Possuía o registro legal para ter Sebastião, seu tucano. Além de Tião, como era chamado pelo dono, havia mais cinco tucanos. Porém, sempre que precisava demonstrar alguns de seus argumentos ele portava Sebastião por ser o único tucano com bico branco conhecido até então. Queria comprovar que a qualidade do ar e da água influenciam nas cores dos bicos dos tucanos e que os mesmos não acasalavam por não chamarem a atenção das fêmeas. Cezar só não sabia que sua tese, escolhida há cinco anos, seria parte do efeito dominó que culminaria no acidente fatal daquela tarde.

Efeito dominó

Todo efeito tem a sua causa. À sucessão de causas que geram um único efeito significativo a ponto de mudar o rumo da história, dá-se o nome se efeito dominó.

Voltemos àquela tarde no Hotel Portucalense. Estevez saiu com Margarida e Bernadete do quarto 312 no primeiro andar e desceu ao saguão pelo elevador onde estava Silva com Sebastião em sua jaula coberta por uma capa preta. Aqueles iam ao jardim botânico e esses iam a um congresso na Universidade de São Paulo.

Todos ficaram esperando o UBER na porta de entrada do hotel. Silva abriu a capa com zíper na lateral para dar ração ao Sebastião. A trezentos metros Tonhão vinha dirigindo há 80 km por hora. Os olhos de Bernadete pousaram no pássaro que de repente escapou da jaula, que não fora fechada. Dirigiu-se à rua. Margarida viu tudo, mas tomou a mesma decisão de ignorar a pequena, que soltou de suas mãos e correu para a Avenida Paulista atrás de Sebastião. O pássaro voou para bem longe. Estevez não teve tempo de segurar a filha. Tonhão não conseguiu frear a tempo. Atropelou-a há 50 km por hora. Margarida gritou espantada ao ver sua pequena voar como o tucano. Estevez sacou a pistola automática calibre 380 e foi à cabine do caminhão. Disparou três tiros e caiu antes de chegar ao corpo de Bernadete. Um enfarto fulminante livrou Estevez de seus pesadelos. Estevez libertou Noêmia de seu carma. Bernadete libertou a mãe de seu desgosto. Livraram Cezar de seu emprego e por fim, Sebastião sentiu o gosto da liberdade que nunca teve.

Luciano Aparecido Marques

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