He lived like the beasts of the field.

He was in the midst of men, yet knew no one, loved no one, exciting in the breasts of the peasants only a sort of careless contempt and smoldering hostility.

They nicknamed him “Bell,” because he hung between his two crutches like a church bell between its supports.

The Beggar, Guy de Maupassant

Sr. Manuel pegou provisões para um dia de viagem pela mata e partiu assim que o sol raiou. Foi visitar a irmã, dona Lourdes que morava para além do igarapé da serra, no pé da Colina dos Gaviões. O velho contava com setenta anos e não tinha aquela vitalidade de quando menino. Não era mais aquele que subia o rio Tererê a nado de índio carregando os apetrechos de roceiro na bolsa tiracolo de coro de boi.

Quando jovem fitava as raparigas e derretia corações moles. Foi assim que conquistou e se casou com dona Marquinha com quem tinha cinco filhos, que agora não lhe serviam para nada. Estavam todos na cidade. Mandavam-lhe coisas, mimos, negócio de gente velha. Era o resto dado ao resto que lhe sobrava de vida. Ele queria mais, queria a presença, o calor humano, um pouco de fagulha da vida alheia para aquecer o que restava de sua própria existência.

O solo estava úmido devido à chuva da noite anterior, mas o velho era matuto e já colocara a bota antes mesmo de partir. No caminho cumprimentava todos que via.

No alpendre da casa deixara tudo arrumado de tal modo que parecia que não iria retornar. Alimentou as cachorras Loba e Onça. Soltou os periquitos que voaram dando graças à liberdade outrora injustamente roubada. No caminho, seguido pelas cachorras, passou pela venda de seu Neca, acertou as contas que devia e pediu o seu barco emprestado.

No boteco de seu Antônio tomou uma pinga e jogou no bicho. Havia sonhado com cobra. Mau agouro! Jogou na cobra e na ovelha. Num lapso de segundos associou a jogatina com a serpente maligna e o Cordeiro de Deus. Sabia que era pecador, mas quem não é?

Até chegar ao pé da Colina Estreita, Sr. Manuel precisava terminar a caminhada ao fim da rua e atravessar a rodovia. Quando chegou à última casa em frente à capelinha de Nossa Senhora da Conceição, dona Marta gritou lá do quintal:

_ Seu, Mané. O senhor vai ver a Lourdes?

_ Pretendo, comadre.

_ Então leva uma travessa que eu trouxe da casa dela outro dia.

_ É claro, dona Marta.

Sr. Manuel pegou a travessa, uma forma redonda de bolo, atravessou a rodovia e entrou na mata rasteira e lamacenta.

Quando era viva, dona Marquinha cuidava muito bem de Sr. Manuel. Levava comida para ele na roça e cuidava das feridas de seu corpo e de sua alma. Cozinhava muito bem e o velho matuto gostava muito do feijão tropeiro da esposa, ao passo que havia aprendido a cozinhá-lo antes de perdê-la para o diabetes.

De cada filho ele levava uma lembrança boa: as cantigas de roda em família, o gracejo no olhar das crianças, a inocência dos pequenos, todas as lembranças eram pueris. Da fase adulta dos filhos tinha pouquíssimas lembranças.

Certa vez foi ao circo com a família. Naquela época tinha apenas os três primeiros filhos: Joaquim, João e José, que era o mais velho. Cada criança quis uma bexiga, mas o pai tinha dinheiro para comprar apenas uma, e foi o que fez, com a intenção de que os três brincassem juntos. As crianças fizeram tanta birra que o homem estourou a bexiga e deu um pedaço da borracha que sobrou para cada um. Era a forma prática que o velho tinha de educar os filhos.

Quando ainda moço, na idade de trinta anos resolveu uma rixa antiga do pai com o dono da farmácia. Todas as vezes que precisava ir ao estabelecimento para comprar alguma medicação, o proprietário chamado Oswaldo, dizia a Sr. Manuel que seu pai lhe devia cinco garrotes. Cansado dessa cobrança sem fundamento, o homem pediu para que um empregado deixasse cinco garrotes bonitos na fazenda de Sr. Oswaldo e aproveitou para processá-lo por calúnia e difamação. Ganhou a causa porque a posse do terreno onde a farmácia estava situada era ilegal. Além de perder o estabelecimento, Sr. Oswaldo teve de pagar em dinheiro o valor equivalente a dez garrotes para Sr. Manuel.

Adorava assobiar. Foi entoando muitas melodias doces que Sr. Manuel chegou às margens do rio Tererê. Era por volta das onze horas da manhã. O sol estava a pino e o homem resolveu comer o feijão tropeiro que trouxera na bolsa a tiracolo. Lembrou do irmão Fernando. Eles costumavam pescar juntos naquele mesmo rio até a véspera do dia emblemático do sumiço do irmão. Dizem que Fernando não batia muito bem da cabeça e adentrara no matagal depois de brigar com a namorada e nunca mais foi visto. Seu corpo nunca foi encontrado, por isso os familiares o deram por morto.  A perda foi grande para Sr. Manuel que amava muito esse irmão.

O rio estava um pouco agitado pela chuva da noite anterior. Se fosse há vinte anos, provavelmente o velho atravessaria o rio a nado, porém a prudência bateu forte em seu peito e ele entrou no barco de seu Neca que estava amarrado nas estacas. Atravessou com certa tranqüilidade os cem metros de largura do Tererê.  Amarrou o barco nas estacas do outro lado da margem e continuou o trajeto. Depois de duas horas a pé chegou à fazenda da irmã, vindo da mata.

Dona Lourdes não gostava que o irmão aparecesse assim. Parecia um selvagem, ela dizia para si mesma. Chegara pela mata umas três vezes incluindo o dia do casamento de Lourdes com Haroldo e, depois de tantas desavenças, o irmão não aparecia mais pela mata nem pela estrada. Simplesmente não vinha mais.

Eram cinco irmãos: Moacir, Manuel, Lourdes, Fernando e Antônio. Moacir era o natimorto primogênito que durou cinco segundos e partiu em seguida. Antônio era o segundo. Morrera de sífilis aos quinze anos de idade. Dizem que ele não perdoava nem as galinhas! Manuel era o terceiro filho e Fernando o quarto. Lourdes era a quinta. A caçula era a única mulher. Criada com austeridade, Lourdes parecia de pedra. Cozinhava muito bem. Sua comida era muito parecida com a da mãe, dona Ana. Porém, o que mais Joaquim adorava era o seu bolo de mandioca. Era muito parecido com o de dona Ana, no entanto este era mais seco e doce, enquanto aquele tinha uma textura mais umedecida e desmanchava na boca, além de ser menos adocicado.

Sr. Manuel simplesmente amava o bolo da irmã, principalmente porque lhe fazia lembrar nostalgicamente do tempo em que o dividia com Fernando na escola e nas pescarias do Tererê.

Assim que chegou ao pasto que ficava atrás da casa de dona Lourdes, seu irmão tirou as botas para andar mais rápido e foi pisando a passos largos até o alpendre. Sentiu uma dor aguda no dedão do pé direito. Era uma picada. Com toda a sua experiência, Sr. Manuel achou que fosse alguma serpente, mas ao olhar o ferimento não viu duas fissuras como as habituais mordidas de cobra. Era apenas um pontinho vermelho que ele associou à picada de vespa a qual já estava habituado.

No alpendre havia cinco pessoas vestidas em trajes sociais. Duas mulheres, dois homens e um menino de aproximadamente dez anos. Não reconheceu nenhuma das pessoas.  Acenou para elas tirando o chapéu. Apenas a criança o cumprimentou, os demais ficaram espantados com aquela figura ali parada, parecida com alguma criatura saída de lendas remotas sobre florestas. Um homem calvo aparentando ser o mais velho do grupo chamou dona Lourdes com um berro grave.

A mulher apareceu e reconheceu o irmão. Cumprimentou-o do alpendre mesmo e o fez atravessar o quintal entrando pelos fundos da casa, por onde adentrava quem vinha da roça. A cozinha era o cômodo dos fundos, onde Lourdes recebeu o irmão com frieza. Perguntou como andavam as coisas e pediu desculpas por não chamá-lo para passar a noite na casa, uma vez que havia muitas visitas a quem iria acomodar. Falou de Haroldo que andava meio doente e que estava na cidade comprando mudas para a horta hidropônica.

Sr. Manuel sentiu aquele cheiro peculiar e doce. Era o bolo de mandioca.

_ Você sonha com ele, Lourdes?

_ Manuel, você sabe que Fernando já se foi dessa vida, homem. É claro que eu penso nele de vez em quando, mas eu sei que ele está no céu com a mamãe e o papai.

_ Lourdes, me dá um copo de água, por favor.

_ É claro, Mané. Você tem visto as crianças?

_ Faz tempo que não vão a minha casa, Lourdes. Coisa velha fica abandonada mesmo!

_ Bobagem, Mané. Os meninos trabalham muito na cidade.

_ Você fez bolo de mandioca, Lourdes?

_ Fiz, mas acabou. Estou sem farinha, mas vou mandar Haroldo comprar na venda e assim que eu fizer outro bolo eu  mando alguém deixar na sua casa.

Sr. Manuel sabia que aquela seria mais uma promessa que não se cumpriria. Pegou o copo de água e bebeu de uma só vez. Deixou a travessa de dona Marta sobre a mesa e foi se espreguiçar ao sol enquanto a irmã pediu licença para ir ao banheiro. Sr. Manuel estava em estado febril.

Ouviu um grito forte vindo do alpendre:

_ Saia daí, Sebastião! Tem escorpião neste terreno, menino.

A criança correu assustada, passou por Sr. Manuel, entrou na cozinha e abriu o forno para pegar um pedaço de bolo de mandioca. Havia um bolo e meio distribuídos em duas formas. O menino pegou um pedaço, fechou o fogão e correu para o alpendre.

Sr. Manuel sentiu uma dor intensa, não aquela que corrói a carne, mas a que transpassa a alma. Continuava a suar frio com febre. Por que era tão renegado? Por que ninguém o ouvia?

Pegou sua bolsa a tiracolo de sobre a mesa e partiu para o mato de onde veio. Não olhou para trás, observou apenas o céu onde havia muitas nuvens escuras. Já passava das três horas da tarde e com certeza pegaria chuva pelo caminho. Não planejara uma visita de um dia, mas agora precisava voltar às pressas.

No ombro esquerdo carregava a bolsa a tiracolo e nas mãos as botas. A febre o pegou com tamanho ímpeto que sentiu calafrios e começou a ter alucinações. Pensou ter visto o irmão o seguindo e ficou assustado. A viagem de volta sempre é mais rápida, de modo que o velho chegou ao Tererê, mesmo com febre, em uma hora e meia. O céu à leste estava muito escuro e o rio estava bravo e trazia consigo toras de madeira e resto de coisas diversas.

A porcaria do barco não estava lá, porque o nó fora frouxo demais. Sr. Manuel pensou em Marquinha e nos filhos. Pôs os pés no rio, pois era a sua única chance de sobreviver. Ouviu a voz de Fernando nitidamente pedindo isca para pesca. Entrou no rio e nunca mais saiu de lá.

Luciano Aparecido Marques.

4 comentários em “O bolo.

  1. Já tinha lido está história uma vez,e hj li novamente,chorei na primeira vez e hj chorei de novo, muito linda essa história, parabéns Luciano, meu filho❤️

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