Na madrugada do dia 6 de junho de 1944 os soldados alojados na estalagem “La Vie” começaram os preparativos para partirem ao campo de concentração de Drancy de onde seriam transferidos a algum campo de extermínio, provavelmente Auschwitz.

Os judeus não dormiram naquela noite. Stephanie tinha um plano, mas não podia compartilhar com ninguém, não naquele lugar e naquela situação. Os soldados poderiam ouvir.

Os judeus eram proibidos de conversar em hebraico. Eles até evitavam fazê-lo para não correrem o risco de serem presos. No entanto, aquela noite era crucial e a única chance de o plano dar certo era falar em hebraico e foi o que Stephanie fez:

_ Irmãos, prestem atenção! Nós iremos sair vivos daqui nesta manhã, mas eu preciso que vocês sigam as minhas recomendações. Quando os soldados forem nos colocar nos caminhões, o meu marido virá a nosso encontro com a resistência. Todos devem se abaixar porque o tiroteio será iminente, vocês entenderam?

Houve um silêncio sepulcral no quarto 88. O soldado Hans abriu a porta abruptamente, acendeu a luz e começou a gritar:

_ Vamos, vamos, judeus! Levante-se todos! Vamos ao seu destino. Abandonem suas esperanças e obedeçam para não sofrerem sem necessidade.

Os judeus se levantaram muito assustados. Todos estavam descalços e vestiam seus pijamas listrados. Alguns choravam ao se olharem e lembrarem de que estavam com os cabelos raspados.

Aquela era a primeira forma de tentar desumanizá-los e retirar toda a individualidade que possuíam. Havia uma intenção clara em construir uma imagem e mostrar que toda essa etnia era miseravelmente igual.

Hans acompanhou a saída dos prisioneiros enquanto outros dois soldados ficaram no corredor vigiando os judeus.

_ Vamos! Vamos todos ao saguão, rápido! Vociferou Hans.

Os judeus se agruparam no saguão da estalagem. Uma criança pediu para ir ao banheiro e um soldado se compadeceu olhando para a criança, mas antes que falasse qualquer coisa, a voz de Schwert retumbou no saguão:

_ Se quiserem que mijem e caguem nas calças! Preparem-se para ir ao caminhão. Iremos sair logo!

O relógio apontava 3:45 da manhã e foi nesse momento que uma sirene soou ao fundo. O soldado Hühnlein entrou às pressas no saguão:

_ Paraquedistas, senhor! Estamos sob ataque!

_ Soldado, Hans, leve os judeus ao quarto 88 e os vigie. Se alguém tentar fugir, matem todos eles, gritou Schwert.

_ Vamos! Todos, em suas posições!

_ Sim senhor! Vozes ecoaram no saguão.

A Waffen SS era constituída por soldados muito bem preparados que recebiam seu treinamento desde a escola da juventude hitlerista. Portanto, cada soldado já sabia o que fazer desde cedo. Todos pegaram seus equipamentos e se agruparam na porta da estalagem. Os soldados já começavam a ouvir o som de tiros e explosões ao longe.

Ao sair Schneider olhou para o céu e viu uma imensa nuvem de paraquedistas caindo do céu. O tempo estava chuvoso e toda aquela conversa sobre a invasão dos aliados ser iminente estava se concretizando naquela noite. Nos alto falantes das ruas começaram a tocar o hino da resistência: “Le Chant des Partisans”.

_ Hühnlein, Müller, Hoffman e Schulz vocês ficam a meu lado! Fritz, Norman e Weber, façam o reconhecimento na ala leste. Os demais soldados, protejam o alojamento. Deu as ordens, Schneider.

_ Sim, senhor! Responderam os soldados em uníssono.

A ala leste era mais escura e sombria, pois havia ruas e vielas sem iluminação que se entrecortavam como vasos sanguíneos. Weber era um cabo da SS e portanto liderava essa ofensiva. A demanda avistou uma casa abandonada e um paraquedas estirado ao chão. Fritz avançou demais e foi advertido por Weber.

_ Fritz, abaixa, porra! Pega o binóculo e tente avistar alguma coisa dentro da casa.

Fritz pegou o binóculo e olhou em direção à porta, mas não viu nada.

_ Esse paraquedista pode estar em qualquer lugar. Prestem atenção homens! Continuou Weber.

A formação dos três soldados era como uma centopeia. Cada soldado protegia um flanco. O cabo Weber continuou dando ordens:

_Norman, prepare sua posição, esse calhorda pode estar em qualquer lugar.

O soldado Norman era franco atirador e já havia matado algumas dúzias de soldados durante a guerra. Ele se entrincheirou muito bem atrás de uma lixeira que não o protegia bem, mas podia camuflá-lo perfeitamente. Ali ele montou o seu equipamento de precisão.

_ Ouço barulhos estranhos vindo daquela casa velha senhor! Peço permissão para investigar, disse Fritz.

_Permissão concedida, mas mantenha a posição defensiva.

_ Sim, senhor!

O soldado Fritz saiu de uma viela em direção à casa, mas o seu erro foi confiar demais.

_ A posição de defesa, porra! Gritou o cabo.

Weber não teve tempo de se esquivar. Um tiro na coxa esquerda e uma bala na cabeça acabaram com a sua vida.

Havia um bosque do lado direito da viela. Weber correu para o bosque e assoprou o seu apito bem alto.  Norman manteve sua posição em silêncio. O inimigo não o vira e isso era uma ótima vantagem.

Obergefreiter Schneider e seus três soldados ouviram o apito e correram à ala leste se protegendo de forma estratégica. Depois de quatro quarteirões, o soldado Hühnlein avistou com seu binóculo o paraquedas estirado em frente à casa velha. Ele foi alvejado por tiros de fuzil vindos da casa, mas esses tiros não o acertaram.

Os soldados evitaram aquele caminho e partiram para o bosque. No local os quatro soldados encontraram o cabo Weber que relatou o acontecido. Agora sob o comando de Obergefreiter Schneider os soldados deram a volta ao quarteirão e cercaram a casa, cada um em uma posição estratégica. A liderança de Schneider era diferenciada, seu único erro naquele ataque foi acreditar que havia apenas um soldado inimigo dentro da casa.

O soldado Norman ouviu os tiros contra o agrupamento e avistou duas pessoas atirando de um local na casa que estava em ruínas. Para ele foi fácil atirar contra os inimigos e esmagá-los sem dificuldade. Agora ele só precisava avisar ao Obergefreiter Schneider que havia abatido os soldados. Norman manteve a sua posição naquela noite, o que lhe garantiria a sobrevivência.

_ Hühnlein, jogue uma granada no filho da puta enquanto eu o distraio com o meu rifle, ordenou Obergefreiter Schneider.

_ Sim senhor!

Schneider começou a atirar a esmo para dentro da casa. A armadilha funcionou, pois ele recebeu outros tiros em troca. Enquanto os soldados se alvejavam a esmo, o soldado Hühnlein atirou a granada em direção aos escombros da casa. Ao explodir a bomba ouviram-se gritos de lamentação e dor. Pronto, eles haviam aniquilado o soldado inimigo, pelo menos assim eles pensavam.

Hühnlein se dirigiu à casa e adentrou à porta principal. Mas, para o seu espanto havia dois homens caídos ali. Com uma baioneta ele os espetou para conferir se estavam mortos. Em seguida ele viu mais um corpo à sua frente. O homem estava terrivelmente ferido e havia um fuzil a seu lado. A cena o paralisou por alguns segundos.

No flanco esquerdo da casa os soldados Hoffman e Schulz estavam portando os seus rifles e caminhavam alertas sob chuva, balas e música.

Eles ouviram tiros vindo em sua direção. Schulz foi atingido e caiu morto aos pés de Hoffman. O soldado correu atirando pela rua em desespero e conseguiu atravessar a ofensiva inimiga milagrosamente, e foi se encontrar com Obergefreiter Schneider no sopé do bosque. Foi nesse instante que os dois soldados conseguiram fugir em direção à igreja.

Trecho do livro “Alfred Richardson Queria ir à Guerra”.

Baixem o livro gratuitamente no site da Amazon.com.br.

Luciano Aparecido Marques.

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