A grande lei da causalidade

De quem é esse tempo?

Não seria das flores?

Ou de todas as dores

Cujo triste lamento

Ocultado na alma

Corrói a santa calma

E destrói o momento

Conferindo ao destino

As mazelas do corpo

Como se houvesse porto

Em que todo o ferido

Por sua própria rudeza

Retornasse ao início

Onde todo o vício

Encontraria a pureza?

Não é assim, meu caro

A natureza cobra

O que ato aprova

E a falta de amparo

Porque se desencanta

O estado atual

Vem d’um mundo no qual

Colhe-se o que se planta.

Mesmo que seja incrível

Mas de um ato inocente

O corpo ainda sente

Tal lei irredutível!

….

Luciano Aparecido Marques

Cronos e o desejo

Depois eu faço

Amanhã eu terei tempo

Agora estou alimentando a minha demanda hormonal

Quando eu terminar essa ação tão esquematicamente normal

Eu direi a mim mesmo:

_Que embaraço!

Porque não consigo?

Tal como o discípulo afirmou

Ser difícil fazer aquilo que é preciso em detrimento do que eu quero

Sei o que devo realizar, mas coloco na frente a imediata vontade estéril

Dessa forma me torno quem sou

E não o que preciso.

E assim passa-se o tempo

Jocoso e tenaz, mas maquinalmente sádico

Pois quando termina a aurora do desejo encravado na alma

Ele sai indiferente rumo ao infinito e com toda calma

Nos deixa perdidos no presente trágico

No qual perdemos o momento

Luciano Aparecido Marques

Último dia

Naquele dia o mundo estará ausente

E a fenda do tempo se desdobrará.

Atônito afogado na mente

O corpo dará o seu último suspiro

E do peito mortal

O coração que tanto amou

Baterá pela última vez

Os estímulos todos se irão

Sobrará apenas a solidão e o medo

O sol brilhará lá fora

O céu estará em seu lugar

Uma criança estará sorrindo

Alguém do outro lado do mundo também estará morrendo

Mas a alma viverá

O Espírito da esperança resistirá

E encontrará em Deus sua morada.

Amém.

Luciano Aparecido Marques

Viagem

Em tom de graça

Um menino corre pelo trilho do trem.

De um lado a floresta densa

Do outro o precipício oblíquo.

Sua mãe o observa atenta

Dói só de pensar em perdê-lo…

_ Saia daí menino, lá vem o trem!!!!

Para ele a imigração é aventura,

Para os demais, em fila indiana, tudo é sem sentido

Não há nada certo, só dúvidas!

Mas ao garoto, o trilho do trem já significa tudo:

A travessia para terras desconhecidas

A vida nova, a paisagem que se abre…

A inocência é capaz de dar sentido onde não há

E a beleza que vem dos olhos do observador

Ultrapassa as barreiras insólitas da injustiça.

Amemos para compreender

Compreendamos para amar.

Luciano Aparecido Marques.

A sombra do Pai, romance histórico sobre o glorioso São José.

Publicado em 1977 e escrito pelo polonês Jan Dobraczynski, o livro “A Sombra do Pai” apresenta a vida do glorioso São José segundo a sua própria perspectiva. A obra é ímpar por apresentar nuances da vida da Sagrada Família que não estão apresentadas na Bíblia, mas que obviamente aconteceram.

De todos os aspectos impressionantes narrados no livro, o que mais se destaca é a relação entre São José, Nossa Senhora e Jesus. A narrativa está separada em duas partes, sendo a primeira chamada de “A Esposa” e a segunda de “O Filho. Na primeira parte o narrador onisciente apresenta a vida de São José e Nossa Senhora antes do nascimento de Jesus. Essa narrativa tem como perspectiva a visão de São José sobre os fatos narrados. Já na segunda parte, a história se desdobra do nascimento de Jesus até os seus doze anos de idade, período em que ele “se perde” no templo em Jerusalém.

A obra relata cenas que possivelmente fizeram parte da vida da Sagrada Família, como as dificuldades pelas quais passaram na fuga de Belém para o Egito:

[…] De novo puseram-se a caminho. Iam de vagar, mas sem parar. Jesus continuava dormindo. José sentia seu rostinho (de Jesus) quente contra a face e as mãozinhas enlaçadas em seu pescoço. A noite chegava ao fim. Apagavam-se as estrelas. O espaço se enchia de uma bruma acinzentada e úmida. Lá atrás deles, por trás da colina despontava o dia. Mas sua claridade ainda demoraria muito a mostrar-se no barranco que desciam. […]

Outro aspecto valoroso na obra é o acervo de informações históricas que tornam o relato bíblico mais compreensível, como por exemplo informações sobre personagens históricos, cujos nomes são citados na Bíblia, mas não são esmiuçados nas Sagradas Escrituras. Um relato impressionante para elucidar essa questão são as tramas, fofocas e traições na casa de Herodes e a descrição de uma mente psicopata capaz de cometer assassinatos em massa devido ao excesso de loucura causado por desconfianças infundadas:

Foto por Haley Black em Pexels.com

” _ Basta! Já chega de conversa! Eu te digo, meus irmãos não gostam de mim, embora eu os tenha feito reis. Os judeus não gostam de mim, ainda que eu me tenha feito judeu para eles. Não levo à boca nenhum pedaço de carne de porco. Eu me acomodo a seus loucos costumes. Não permiti que os moedeiros pusessem minha efígie nas moedas. Construí um templo para eles. Minha esposa era uma princesa deles. Eu sou realmente rei dos judeus. Um rei verdadeiro, como jamais tiveram um.”

Por fim cabe salientar a citação do cardeal primaz da Polônia Stefan Wyszynki ao autor no início do livro:

Querido Jan,

Em “A Sombra do Pai” trouxeste à luz o guardião de Jesus e de sua Mãe Imaculada… Ajudaste-nos a entender São José…

Deus te recompensará por isso.

  • Viva a memória de São José em seu dia!
  • Salve Maria Santíssima!

Luciano Aparecido Marques

Mulheres que sofrem.

Queridos leitores, muitos de vocês podem não saber, mas hoje, dia 6 de fevereiro, é o Dia Internacional da Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina. Esse problema é clássico e advém de eras remotas. Há relatos inclusive em livros antigos, como a própria Bíblia Sagrada, que narra casos em que homens e mulheres eram forçados a se tornar eunucos por questões sociais.

“A mutilação genital feminina (MGF) é uma prática que envolve a alteração ou lesão da genitália feminina por razões não médicas e é reconhecida internacionalmente como uma violação dos direitos humanos.”

https://unric.org/pt/dia-internacional-da-tolerancia-zero-a-mutilacao-genital-feminina/

Em nosso país há um outro problema que choca a todos, o feminicídio. Até quando iremos conviver com essa barbárie? Penso que há de se fazer novas leis e punições para tais casos. Há vários fatores que levam um homem a assassinar uma mulher e dentre esses eu destaco: ciúmes, uso de drogas e álcool e doenças psicológicas.

O ciúmes não é apenas um problema patológico, mas também social, uma vez que todo o pathos construído sobre a figura feminina é distorcido em filmes, novelas e no discurso do dia-a-dia. Quando um jovem começa a namorar uma garota, em geral ele já trás em si uma bagagem cultural distorcida sobre figura feminina.

Por fim, a mulher não é posse de ninguém, o homem não deve dominá-la, mas conquistar o seu respeito e se este não lhe for correspondido não se resolve o problema matando a parceira.

Quanto ao uso de entorpecentes, dos quais destaco o álcool por ser de mais fácil consumo, eles possuem um efeito que potencializa o feminicídio. Sabemos que as mulheres também sofrem por amar esses homens obsessivos, mas, às vezes, a única saída é libertar-se deles.

Foto por Olga em Pexels.com

Estorvo moribundo.

Ela entrou por um lado e viu com tristeza

Os copos jogados, as latas de cerveja…

Ele entrou pelo outro e viu com clareza

A felicidade que tal festa enseja.

Um sabia que teria de arrumar a casa

E depois acompanhar o outro ao hospital

Aquele, por outro lado encheria a cara

Depois trataria de seu estado mental

E para tal,

Beberia mais e mais devagarinho,

Morreria mais rápido também

E com tolice sem igual

Aquela que o trata com carinho

Puxaria para junto de si ao além.

A ela, conselho melhor não se daria

Que aquele da bandeira de Minas

“Libertas quae sera tamem”

Luciano Aparecido Marques

Um mais um é igual a tudo.

O que seria da minha vida sem você?

O faroleiro sem companhia,

Ou o ébrio jogado na sarjeta?

O fato é que a vida não seria

Mais do que um universo sem planeta.

Qual seria o rumo a tomar sem você?

Não seria apenas uma cisterna vazia,

Um oásis feito de miragem,

Cuja opaca e languida apatia

Sobreporia a paisagem de tal imagem?

A que conclusão chego em tal querela?

Sou o que tu vês

Porque tu és em mim

E o derradeiro fim

Sou eu em você.

…..

Luciano Marques

Raymond Carver, a minimalist.

For those who are passionate by a minimalist written style, Raymond Carver is a great option for your next reading choice. Mr. Carver’s tales go further the daily immediate problems we deal with, once he brings more intimate manias, self expectations and mediocrity. These three themes are spread in his tales.

A good example of that is his tale “Neighbors” (spoilers ahead), in which the narrator presents a couple, Bill and Arlene Miller, who show strange behavior when they start looking after their neighbors’ house while they are on a trip. Bill begins visiting the neighbor’s house often, and puts on his wife neighbor’s bras and painties. Apart from that strange mania, Bill becomes more eager to have sex with Arlene.

Another example is the tale “They are not your husband” in which an unemployed salesperson named Earl Ober goes to her wife’s workplace, a coffee shop, and orders some snack. While she is waiting on the guests, Earl listens to two men’s commentaries on her wife:

“Look at the ass on that. I don’t believe it” The other man laughed. “I’ve seen better”

Raymon Carver in “Will you please be quiet, please?”

Earl becomes paranoid about Doreen’s (his wife) weight and decides to ask her to go on a diet. Doreen makes a great effort to lose pounds while Earls starts controlling her habits and public life.

By unveiling the real American dream, Mr. Carver excavates deeply in the soul of the common American and shows the reader some aspects of the raw reality of the post Great Depression. His direct and economic style turns the narrative more suggestive than exposed, which makes his tales more vivid and riddled. The reader ends up fulling the holes more by the suggestive scenes than the explicit text.

A good example of that is the tale “The Idea”, from which we may infer, by her inner thought, that the narrator has a repressed wish to cheat on her husband, while showing us the contrary through her hypocritical actions.

To make a long story short, it is worth reading Raymond Carver in order to find out the dark side of the moon on humans.

Luciano Aparecido Marques

Aos católicos

Da trilha que o orante percorre
Jesus há de ser o centro,
O destino final e concreto

O conforto no caminho é Maria
O contato direto é o terço
Em cuja oração imersos

Os sábios já sabem
Que para tal dádiva não há preço
E mesmo que se quisesse o inverso

E com ouro lhe enchessem o alforje
Ainda assim tal adereço
É nada comparado ao Eterno.

Luciano Aparecido Marque