A última lembrança da partida

Aprendas a conviver consigo mesmo

É a melhor coisa que podes fazer!

Não é um ato egoísta

Mas um treino altruísta

Para o próprio bem do ser

Pois no fim dos tempos,

Quando atingires a quintescência

E o céu engolir o momento

Estarás tu e tua consciência

E a última lembrança que carregares no fundo do peito

Será para ti consolo ou desprezo.

Luciano Aparecido Marques

Cronos e o desejo

Depois eu faço

Amanhã eu terei tempo

Agora estou alimentando a minha demanda hormonal

Quando eu terminar essa ação tão esquematicamente normal

Eu direi a mim mesmo:

_Que embaraço!

Porque não consigo?

Tal como o discípulo afirmou

Ser difícil fazer aquilo que é preciso em detrimento do que eu quero

Sei o que devo realizar, mas coloco na frente a imediata vontade estéril

Dessa forma me torno quem sou

E não o que preciso.

E assim passa-se o tempo

Jocoso e tenaz, mas maquinalmente sádico

Pois quando termina a aurora do desejo encravado na alma

Ele sai indiferente rumo ao infinito e com toda calma

Nos deixa perdidos no presente trágico

No qual perdemos o momento

Luciano Aparecido Marques

Último dia

Naquele dia o mundo estará ausente

E a fenda do tempo se desdobrará.

Atônito afogado na mente

O corpo dará o seu último suspiro

E do peito mortal

O coração que tanto amou

Baterá pela última vez

Os estímulos todos se irão

Sobrará apenas a solidão e o medo

O sol brilhará lá fora

O céu estará em seu lugar

Uma criança estará sorrindo

Alguém do outro lado do mundo também estará morrendo

Mas a alma viverá

O Espírito da esperança resistirá

E encontrará em Deus sua morada.

Amém.

Luciano Aparecido Marques

Viagem

Em tom de graça

Um menino corre pelo trilho do trem.

De um lado a floresta densa

Do outro o precipício oblíquo.

Sua mãe o observa atenta

Dói só de pensar em perdê-lo…

_ Saia daí menino, lá vem o trem!!!!

Para ele a imigração é aventura,

Para os demais, em fila indiana, tudo é sem sentido

Não há nada certo, só dúvidas!

Mas ao garoto, o trilho do trem já significa tudo:

A travessia para terras desconhecidas

A vida nova, a paisagem que se abre…

A inocência é capaz de dar sentido onde não há

E a beleza que vem dos olhos do observador

Ultrapassa as barreiras insólitas da injustiça.

Amemos para compreender

Compreendamos para amar.

Luciano Aparecido Marques.

Um mais um é igual a tudo.

O que seria da minha vida sem você?

O faroleiro sem companhia,

Ou o ébrio jogado na sarjeta?

O fato é que a vida não seria

Mais do que um universo sem planeta.

Qual seria o rumo a tomar sem você?

Não seria apenas uma cisterna vazia,

Um oásis feito de miragem,

Cuja opaca e languida apatia

Sobreporia a paisagem de tal imagem?

A que conclusão chego em tal querela?

Sou o que tu vês

Porque tu és em mim

E o derradeiro fim

Sou eu em você.

…..

Luciano Marques

Raymond Carver, a minimalist.

For those who are passionate by a minimalist written style, Raymond Carver is a great option for your next reading choice. Mr. Carver’s tales go further the daily immediate problems we deal with, once he brings more intimate manias, self expectations and mediocrity. These three themes are spread in his tales.

A good example of that is his tale “Neighbors” (spoilers ahead), in which the narrator presents a couple, Bill and Arlene Miller, who show strange behavior when they start looking after their neighbors’ house while they are on a trip. Bill begins visiting the neighbor’s house often, and puts on his wife neighbor’s bras and painties. Apart from that strange mania, Bill becomes more eager to have sex with Arlene.

Another example is the tale “They are not your husband” in which an unemployed salesperson named Earl Ober goes to her wife’s workplace, a coffee shop, and orders some snack. While she is waiting on the guests, Earl listens to two men’s commentaries on her wife:

“Look at the ass on that. I don’t believe it” The other man laughed. “I’ve seen better”

Raymon Carver in “Will you please be quiet, please?”

Earl becomes paranoid about Doreen’s (his wife) weight and decides to ask her to go on a diet. Doreen makes a great effort to lose pounds while Earls starts controlling her habits and public life.

By unveiling the real American dream, Mr. Carver excavates deeply in the soul of the common American and shows the reader some aspects of the raw reality of the post Great Depression. His direct and economic style turns the narrative more suggestive than exposed, which makes his tales more vivid and riddled. The reader ends up fulling the holes more by the suggestive scenes than the explicit text.

A good example of that is the tale “The Idea”, from which we may infer, by her inner thought, that the narrator has a repressed wish to cheat on her husband, while showing us the contrary through her hypocritical actions.

To make a long story short, it is worth reading Raymond Carver in order to find out the dark side of the moon on humans.

Luciano Aparecido Marques

Aos católicos

Da trilha que o orante percorre
Jesus há de ser o centro,
O destino final e concreto

O conforto no caminho é Maria
O contato direto é o terço
Em cuja oração imersos

Os sábios já sabem
Que para tal dádiva não há preço
E mesmo que se quisesse o inverso

E com ouro lhe enchessem o alforje
Ainda assim tal adereço
É nada comparado ao Eterno.

Luciano Aparecido Marque

Luto

Ela remói dolorida aqui dentro,

Remexe gosmenta em todos os cantos.

Foge enquanto eu a busco atento,

Com meus neurônios pulsando nos flancos.

Fica cravada feito vã maldade

Sem remédio de nenhuma parte.

Ferpa encrustada no fundo da carne.

Seu nome qual é!!? Chamam-na saudade!

Onde está afinal aquela estrela

Que costumava brilhar no céu negro,

E de manhã tão quente como sol

Abria a porta do sorriso

E com olhos brilhantes feito farol

Dizia: “Nossa, que dia lindo”?

É, meu caro, o que fazer nesta hora?

Resta apresentar ao criador,

Do poente a aurora, a própria dor

Que como bálsamo cicatrizante,

Fará um dia a dor ficar menos pulsante.

Luciano Aparecido Marques

A paz de Cristo

Nunca se esqueças que na escuridão

Deus ali estará!

E a fenda aberta pelo medo,

O Espírito Santo curará.

No abandono do desespero e da dor

Quando tudo parecer perdido,

Tens as mãos estendidas do Criador

Com seu punho destro estendido.

E quando não souberes como agir,

O que fazer de sua sacra vida,

Os santos lhe serão modelo, dos quais o maior

É a Santa Virgem Maria.

Por fim, no meio do negrume maléfico da dor

Procure pelo Salvador.

Siga ao fim do tunel até a luz.

Ali o encontrarás! Lá, no silêncio da oração,

O cordeiro de Deus, Jesus.

Luciano Aparecido Marques

Eclosão

A noite é sempre de fim de ano.

Ele vem assim sereno, andando…

Quietinho como quem não quer nada

Achega-se e faz morada.

Seu nome é tempo.

Tão imperceptível no momento!

Não o reconhecemos quando em criança

Pois que o temos em abundância.

E nesse baile a vida passa imensa

Feliz e sorrateira,

Sem dar conta de sua presença.

Mas um dia, a música fica lenta

E a boa idade vem chegando,

Trazendo consigo sua beleza.

Agora sua presença é inexorável,

Sua voz brada nas esquinas.

Sua comanda, à medida dos abusos, infindável

E o troco vem de sobra na fraqueza

Dos anos vividos como se fossem eternos.

O que nos resta?

Culpar o tempo?

Ladrão! Algoz! Injusto!

Não, meu bom amigo…

Resta-nos abraçar-lhe no salão

E com dignidade dançar

A nova trilha sonora que a vida nos dá.

Luciano Aparecido Marques