Canalhas!

“Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade.”

Joseph Goebbels

Não havia nenhuma forma de conter a agressividade dos jovens da Rua dos Morgados. O mais perigoso do bando era Zé Antônio. Cara amassada e pescoço encolhido para dentro dos ombros, com uma expressão de espantalho oco. Tivera sua infância roubada nos tempos em que morara em Feira de Santana. O sorriso tomava-lhe a cara sempre que estava em ação. Por isso o apelido de “sorriso do diabo”!

Marcelina era o engodo de dezoito anos. Suas pernas torneadas e o corpo estrutural eram a isca perfeita para os patifes do submundo da prostituição. A cada vítima que fazia, ela ganhava uma joia do irmão Marcelo Grandão. Por isso já contava com tamanha quantia de anéis e colares que já podia até abrir uma joalheria, o que inclusive figurava em seus sonhos difusos.

Marcelo Grandão era quem controlava o esquema do golpe do morro dos Aimorés. Extorquira muitos para chegar lá e com certeza não hesitaria em tirar vidas.

O esquema era o seguinte, atrair qualquer vagabundo calhorda e pedófilo ao ninho de cambraia de Marcelina e depois roubar seus pertences, dignidade e a vida pessoal. Quem se importava com esses calhordas, afinal eles não eram melhores do que o bando!

Naquela noite a próxima vítima ao que tudo indicava se chamava Armando Nogueira. Marcelo sempre conseguia a informação no site de relacionamento e com a ajuda do senhor X, cujo rosto o bando nunca vira, ele hackeava todas as informações do contratante. Depois era só depenar tudo o que ele possuía, bens, dinheiro e dignidade. Era um jogo muito rentável.

A última vítima era um tal de Manuel Dias. Casado, pai de três filhos e dono de uma revendedora de automóveis. Presa fácil que até hoje depositava trezentos reais por semana para ter sua “honra” encoberta.

Marcelina nunca chegava a consumar o ato, porque sempre que a vítima chegava ao quarto de hotel ou motel, era interceptada por Zé Antônio, que fazia o trabalho sujo com a arma que roubara do avô aos quinze anos de idade. Tinha sido muito fácil até o cliente Armando Nogueira aparecer.

Agendado o encontro para sexta-feira do dia 13 de novembro, o tal Armando contratou os serviços de Marcelina por mil e duzentos reais, o valor mais alto pago até aquele momento.

O bando passou o dia pelas redondezas, na vila das Araras. Almoçaram juntos no requintadíssimo restaurante dos Silva e depois passaram no Shopping Central para comprar a joia da Marcelina.

_ Mana, você precisa comprar essa joia antes do negócio, mesmo? Resmungou Marcelo Grandão.

Com um olhar de fogo atento às artimanhas do irmão, Marcelina respondeu:

_ Você sabe que eu só trabalho depois de ter a minha recompensa, não é?

_ Você já deu de graça para um monte de marmanjos, agora fica exigindo cota! Porra, você nem vai dar para o sujeito!

_ Vocês estão falando alto demais! Querem estragar tudo? Sussurrou Zé Antônio.

_ Ou compra a joia ou estou fora! Esse sempre foi o combinado! Respondeu Marcelina.

O bando se dispersou depois de ter comprado a tal joia. E marcaram o encontro no local indicado. Marcelo pegaria o tal do Armando no terminal de ônibus Central e depois o deixaria no Hotel Cambraia conforme o combinado. Zé Antônio esperaria no quarto para surpreender o casal que se encontraria no saguão do hotel e depois começariam a tortura psicológica e o roubo.

Armando era muito diferente dos demais. Em geral os clientes eram mais velhos e não possuíam boa aparência. No entanto Armando era uma mulher de aproximadamente vinte e cinco anos de idade e parecia uma modelo dessas de comercial de tevê.

Possuía um leve sotaque espanhol que Marcelo Grandão percebeu logo de cara. No caminho ao hotel, Marcelo conversou com a cliente como se não soubesse de nada. Era parte do esquema que o contratante possuísse um motorista que o levasse ao local indicado para não causar nenhuma suspeita.

_ Desculpe-me a intromissão, minha querida, mas você vem à nossa cidade a negócios? Perguntou Marcelo.

_ Sim, meu caro. Ficarei hospedada no hotel essa noite, mas partirei logo pela manhã. Você pode me buscar às 5:00 da manhã? Você sabe, eu preciso de sigilo nos meus negócios, ok?

_ Você não vai passar a noite no hotel, sua puta, pensou Marcelo e em seguida respondeu: é claro, minha querida, estarei esperando no saguão.

Marcelo deixou Armando na porta do Hotel. A mulher o presenteou com uma caixa finíssima de drageados de chocolate com licor.

 Marcelo partiu para casa que ficava a poucos quarteirões dali. Acendeu o cigarro e estacionou o carro na garagem. Não desceu do veículo, porque sabia que o esquema sempre durava menos de uma hora, período em que voltaria ao hotel para pegar a irmã e o amigo. Ligou o rádio e começou a ouvir música ao mesmo ao tempo em que devorava os deliciosos drageados.

No saguão do hotel, Armando conheceu Marcelina que a acompanhou ao quarto. Na chegada ao local, a contratante disse:

_ Querida, eu preciso ir ao saguão, pois esqueci de uma coisa que será muito especial.

_ Pois não, linda! Irei me preparar todinha para você. Respondeu Marcelina.

No banheiro do saguão, a senhorita Armando retirou uma pistola semiautomática de uma cinta que carregava debaixo de seu terninho e nela instalou um silenciador. Depois disso urinou e assobiou “Satisfaction” do Stones. Voltou ao quarto sem lavar as mãos.

Ao entrar no quarto ela se dirigiu direto ao closet onde Zé Antônio estava escondido, abriu a porta do móvel sem que Zé pudesse reagir e disparou um tiro a queima roupa na cabeça do sujeito que caiu no chão com os olhos lânguidos de cor de suco de limão.

Ao ouvir a queda, Marcelina saiu do banheiro e foi abordada por Armando que disse:

_ Eu tenho três serviços para você. Se me obedecer, você viverá para ver o dia de amanhã, senão eu te mato aqui mesmo.

Marcelina se assustou muito e chorando respondeu:

_ Sim eu vou colaborar. O que você quer de mim?

_ Primeiro você vai me ajudar a esconder esse corpo e vai ligar para o seu irmão dizendo que está tudo sob controle e que ele pode vir me buscar no horário combinado. Depois você vai trepar comigo! Por fim eu irei para casa e iremos esquecer que isso aconteceu, ok?

_ Tudo bem, mas não me machuque, por favor!

As duas esconderam o corpo de Zé Antônio no closet e Marcelina ligou para o irmão:

_ Mano, eu já consegui extorquir a safada! Você pode vir nos pegar às 5:00 amanhã de manhã?

_ Você está maluca! Porque devemos esperar tanto tempo?! Cadê o Zé? Eu quero falar com ele! Respondeu Marcelo Grandão.

Armando tomou o telefone da mão da Marcelina e disse a Marcelo:

_ Acabou, seu filho da puta! Eu tenho a sua irmã e se você não fizer o que eu mandar, ela vai virar presunto junto com o seu amigo.

_ Se você tocar em um fio de cabelo da minha irmã, eu te mato!

_ Eu já estou morta, meu filho. Eu não sou nada para o Estado. A minha ficha nem sequer existe. Eu tenho vários nomes, eu posso ter várias faces e posso estar em vários lugares ao mesmo tempo.

_ Eu vou te pegar, sua puta! O que você quer que eu faça?

_ Você vai transferir um milhão e meio para a conta que eu vou lhe passar. O banco e a agência são…

_ Eu vou transferir agora, mas eu preciso da autorização do banco para transferir todo esse valor.

_Foda-se! Dê os seus pulos. Aliás, você gostou do chocolate? Ele contém uma toxina altíssima, cujo antidoto está na minha bolsa. Você tem até às 5:30 para resolver tudo, enquanto isso eu vou me divertir um pouco.

Marcelo sabia que não conseguiria a transferência, então entrou em casa e foi até a parede falsa do quarto onde escondia todo o dinheiro vivo dos roubos. Estava suando muito e com muita dor de cabeça. Não sabia se aquilo era psicológico ou se era efeito do veneno. Por que foi comer aquela porcaria?

Colocou um milhão na mala e ligou para a irmã, que não atendeu.

No quarto do hotel, Marcelina ficava pela primeira vez com uma mulher. No princípio sentiu estranho, mas depois se entregou. Armando era forte e conduzia a relação de forma perfeita! Nenhum homem a fizera sentir tanto prazer antes!

O telefone celular tocava enquanto as mulheres se entregavam ao prazer inebriante. Não atenderam ao chamado.

Com a arma ao pé da cama e um tom de autoridade militar, Armando ordenou:

_ Tome o seu banho e prepare-se, pois agora você trabalha para mim.

Às 4:00 da manhã, Armando atendeu a ligação do celular. Era Marcelo:

_ Consegui um milhão em espécie e programei a transferência de meio milhão fracionado em dias. Agora solte a minha irmã!

_ No encontro do saguão você poderá vê-la. Assim que eu pegar o dinheiro e eu lhe entrego o antídoto.

Às 5:00 em ponto, Marcelo Grandão estava sentado no sofá do saguão suando feito um porco e com muita dor de cabeça. Armando foi de encontro a ele e lhe entregou uma necessaire pedindo para que ele a abrisse apenas depois que ela partisse dali.

_ A sua irmã está dentro do closet do quarto. Tenha um ótimo dia!

Marcelo pegou o cartão do quarto e furtivamente dirigiu-se a ele. Abriu a porta e entrou no ambiente. Estava asseado. A cama estava arrumada e cada coisa estava em seu lugar. Armando estava tão tonto que se sentou na cama e abriu a necessaire rapidamente. Sem pensar, retirou um frasco de dentro dela e tomou o conteúdo líquido que ali estava. Em seguida abriu o enorme closet e entrou nele. No canto direito e postado sobre a sapateira estava uma arma, a mesma usada para matar Zé Antônio. Marcelo a pegou e investigou.

Armando encontrou Marcelina no estacionamento do Hotel, conforme o combinado. Em seguida as duas entraram no Porche preto estacionado ao lado do táxi de Marcelo e partiram para o seu próprio destino.

Sirenes soavam ao fundo quando Marcelo encontrou o corpo sem vida do amigo dentro de um saco de dormir. Seu rosto estampava um sorriso, o “sorriso do diabo”. Havia um cartão preto em cima da cabeça do homem. No cartão estava escrito “Mr. X”. Desesperado e com a arma na mão ele correu para a porta, mas foi interceptado por policiais que gritavam:

_ Para o chão! Vamos! Largue a arma e coloque as mãos para cima. Vai, vai!

Marcelo viu sua fonte de riqueza secar. Ajoelhou-se com as mãos atrás da cabeça e dali foi levado a passar o que seria o resto de sua vida miserável na cadeia.

Luciano Aparecido Marques

Velório de sangue

Desde a primeira vez que Júlio viu o senhor Kokot, ele achou aquela figura muito estranha. O velho vivia engomado, se escondendo dentro de um sobretudo preto e usava uma cartola bem alta. Quem usa um artefato desses em pleno século XXI? Não importa o quão estranho a figura parecia, o fato é que ele era o único da velha casa ao lado que cumprimentava Júlio em encontros esporádicos.

Assim ocorreu na primeira vez em que Júlio cruzou o caminho do velho:

_ Bom dia, Senhor! Hoje o tempo está bom, não é?

_ Está um pouco abafado, meu filho, mas a minha doença me impossibilita de expor a pele ao sol e usar uma roupa mais fresca.

Júlio fitou o velho de forma inquisitiva, procurando saber em sua memória fotográfica se conhecia alguma doença que impossibilitasse alguém de tomar sol, não lembrou de nenhuma e continuou a conversa.

_ Faz tempo que o Senhor mora nesse condomínio?

_ Eu sou um dos primeiros moradores. Muitos vão e vem, mas a minha família já está aqui desde a década de 40. Meus pais construíram essas duas casas antes do condomínio.

Além da peculiar roupa de preto e a cartola imponente, o velho usava um par de óculos escuro bem moderno para a sua idade. Um belíssimo modelo ray-ban daqueles usados na década de oitenta. O sujeito também portava uma bengala, cujo castão parecia ter o formato de uma gárgula de ouro.

_ A propósito, meu jovem, é um prazer em conhecê-lo, meu nome é Jan Kokot, mas você pode me chamar de velho Kokot.

_ O prazer é todo meu, senhor Kokot. Preciso começar a minha caminhada agora. Até logo!

_ Se precisar de algo, pode contar comigo. Minha família é meio tímida, mas logo você se acostuma com eles. Até logo.

O velho se despediu e começou a caminhar a passos muito lentos em direção à calçada que margeava um belíssimo jardim sazonal. Júlio pegou o mesmo caminho, mas acelerou muito na frente do sr. Kokot. A manhã estava quente e não havia ninguém acordado naquele horário.

Júlio havia se mudado a trabalho para aquele condomínio na Borda da Mata há duas semanas e sua casa era emparelhada com a da família Kokot. No dia da escolha do imóvel, Júlio e a esposa tiveram a opção de escolher entre cinco casas de aluguel, no entanto, a que escolheram era escandalosamente a mais barata do condomínio, chegando à metade do preço, afinal eles iriam passar apenas um mês naquela região de Minas Gerais.

A casa em questão ficava na parte mais distante da entrada do condomínio, há uns dois quilômetros de distância. Segundo o corretor, as duas casas foram as primeiras a serem construídas e não faziam parte do condomínio até a década de sessenta em que ele foi ampliado. Os proprietários concordaram em vender o terreno, porém, as casas mais velhas deveriam sempre se manter intactas e o casarão continuaria sendo propriedade da família Kokot, que concordava em alugar uma das residências por um preço mais barato.

Júlio deu a volta inteira no quarteirão encontrando as casas mais próximas da construção nova que margeavam o jardim. Para a sua surpresa, encontrou o senhor Kokot, e o que viu o deixou espantado, o velho andara quase oitocentos metros! Como ele poderia ter feito isso em tão pouco tempo? Júlio guardou esse detalhe para si e não compartilhou com ninguém – aquilo seria maluquice da sua cabeça!

Um mês após o encontro, e na véspera de deixar a casa e retornar para São Paulo, Júlio ficou apreensivo com uma notícia espantosa. Ao sair para a sua caminhada matinal, encontrou algumas pessoas em frente à casa do sr. Kokot, o que não era muito normal. Eram uma dúzia de sujeitos muito esguios e altos vestindo roupas de gala. Algumas mulheres choravam, enquanto as crianças ignoravam a todos.

Júlio fez a sua caminhada e voltou após os habituais trinta minutos. Ao se dirigir à garagem, foi interpelado por um dos filhos do senhor Kokot, um homem peculiar que nunca havia conversado com Júlio antes.

_ Senhor, desculpe interrompê-lo, mas acho que o senhor precisa saber que o meu pai faleceu na noite passada e iremos velar o seu corpo nessa tarde aqui em casa. O senhor era a única pessoa com quem ele conversava, então achei importante avisá-lo.

Júlio ficou surpreso com a morte de Kokot, e expressou suas condolências ao filho afirmando que iriam ao velório de Kokot, sem dúvida.

Júlio voltou à sua casa e encontrou a esposa Vanessa dormindo. Foi ao chuveiro e tomou banho enquanto a água do café esquentava. Tomou o seu café matinal e respondeu alguns e-mails. O relógio soava 9:00 da manhã. E o sábado estava muito agradável para ficar dormindo até tarde, então Júlio se deitou ao lado da esposa e começou a chamá-la.

_ Amor, amor… Deu duas mordiscadas na orelha direita da esposa. Acorda, o dia está maravilhoso, sussurrou em seu ouvido.

Vanessa acordou muito excitada com aquela abordagem. Os dois fizeram amor e deitaram-se um ao lado do outro por alguns minutos. Vanessa deitou-se com a cabeça sobre o peitoral de Júlio que disse apreensivo:

_ Vanessa, não podemos voltar hoje.

_ Como assim, Júlio? Precisamos ir para São Paulo hoje!

Júlio sabia que a esposa estava muito ansiosa para voltar ao apartamento em São Paulo, onde deixara os pais cuidando de tudo até voltarem.

Vanessa sentou-se na cama esperando uma explicação sobre o fato de terem de passar mais uma noite naquele lugar. A verdade é que ela não gostava daquela casa, pois relatara diversas vezes ter visto vultos e ouvido sons estranhos em vários locais, principalmente no sótão.

_ O senhor Kokot faleceu na noite passada e precisamos ir ao velório. É um sinal de respeito, explicou Júlio.

Vanessa pôs-se a chorar e disse:

_ Respeito com quem? Essa família é maluca! Ninguém dá atenção a nós. As crianças vivem gritando e correndo! Ou você esqueceu das noites em que passamos em claro por causa daquele violino infernal! Eu vou embora hoje, se você quiser ficar é um problema seu!

_ Eu já lhe disse que essas ideias são fruto de sua imaginação. Isso é o efeito da saudade de seus pais, mas logo estaremos juntos. O senhor Kokot me ajudou muito nesses tempos difíceis!

A mulher continuou a tentar dissuadir o marido daquela ideia maluca de ir ao velório de um desconhecido, mas Júlio possuía aquele caráter irresoluto dos imperadores romanos e a esposa teve de ceder.

Às 22:00 horas, a campainha dos Kokot soou. Uma criança com olhar distante abriu a porta. Júlio e Vanessa entraram na casa.

Toda a cena lúgubre se resumia a um cômodo. Nas paredes havia vários retratos de família pintados a óleo. O solo era de taco de carvalho e havia um carpete muito pomposo no centro da sala de estar. Tratava-se de um artefato belíssimo decorado com arabescos moiros.    

Um rapaz muito alto e pálido tocou o ombro de Júlio com sua mão direita e disse:

_ Meu pai ficaria feliz em saber que o senhor e sua esposa vieram. Agradecemos por sua presença nesse momento triste.

Prontamente o casal desejou ao homem suas condolências. A cena era funesta. Uma mulher muito velha passava pela sala de tempos em tempos com uma bandeja de cristal repleta de quitutes e bebidas que eram servidos aos convidados, que contavam com aproximadamente umas vinte pessoas, todas bem vestidas em trajes de gala.

No meio da sala estava o caixão de carvalho do senhor Kokot, que era decorado com insígnias que Júlio não compreendia, exceto pelos símbolos judaicos presentes não apenas no caixão, mas em todo o cômodo: Menorás, estrelas de Davi e um shofar pendurado na parede atrás do cadáver completavam a cena.

Vanessa estava completamente desconfortável e ao contrário de Júlio, era muito religiosa. Sempre trazia em sua bolsa o terço de madrepérolas que ganhara de sua madrinha de batismo.

O casal procurava se enturmar para não ficarem tão deslocados. Iam passando pelas pessoas enlutadas e prestavam suas condolências.

A noite se estendia e parecia que o casal estava sob alguma espécie de hipnose, pois não perceberam que o antigo relógio de pêndulo acabara de soar doze badaladas. Como puderam ficar naquele lugar por aproximadamente duas horas sem perceber?

Júlio fez menção de se despedir do séquito e se deu conta de que não havia olhado para o defunto ainda. O casal se aproximou do caixão e tiveram uma surpresa. O caixão estava vazio!

Da escadaria lateral começaram a descer algumas pessoas. Júlio reconheceu o corretor de imóveis e alguns moradores do condomínio que ele já havia visto algumas vezes.

Vanessa, Júlio, o corretor de imóveis e os outros moradores foram acuados no centro da sala, ao lado do caixão. O séquito de gala foi se aproximando. Seus olhos ficaram vermelhos, suas bocas se abriram e era possível ver presas salientes saltando de suas gengivas protuberantes.

Senhor Kokot gritou de forma bestial:

_ Hora do jantar, irmãos!

Todos os convivas se atiraram contra as vítimas que estavam em transe. A única que parecia estar em si era Vanessa que agarrou seu terço e saiu correndo pela sala ignorada por todos. Atravessou a porta de entrada, correu para a sua casa, entrou no carro estacionado em frente ao jardim e saiu em disparada.

Luciano Aparecido Marques.

Tráfico.

“Com o engodo de uma mentira, pesca-se uma carpa de verdade.”

William Shakespeare

João tentava não se concentrar nas pessoas ao redor. O seu foco era passar pela alfândega. Ele sabia que o aeroporto internacional de Guarulhos em São Paulo possuía câmeras espalhadas por todos os lugares e a polícia federal ficava atenta ao monitoramento.

Sorrindo e falando ao celular, João era uma figura acima de qualquer suspeita. Moreno de olhos amendoados e com um corpo esbelto de um metro e noventa de altura, sua postura de líder era potencializada pelo traje executivo. O terno Armani azul marinho e o Rolex dourado expressavam seu status quo. Qualquer um que cruzasse o seu caminho o julgaria como alguém muito importante e rico.

Pegaria o voo B312 no Airbus da American Airlines e agora caminhava confiante com uma mala executiva que comprara em sua última viagem a Nova York no verão de 2018.

Sentou-se no saguão próximo ao portão B de onde sairia o voo B312. Falava ao celular e sempre sorria. A sua arma mais eficiente era a auto imagem e a confiança. Uma morena muito bonita sentou-se a seu lado assim que ele desligou o celular.

A mulher era o que costumamos chamar de “mulherão”. Usando um terninho feminino cinza com saias da mesma cor, que lhe contornava a silhueta de forma muito sexy.

João encarou a mulher com uma postura provocativa. Possuía o charme de sorrir com um canto dos lábios para provocar as mulheres.

_ Bom dia, querida. Você está acompanhada?

_ Agora estou, falou a mulher sorrindo.

_ Posso lhe oferecer um café sofisticado no Starbucks? Em troca eu ganho a sua companhia.

Amanda aceitou o convite de prontidão.

No Starbucks os dois trocaram olhares e palavras. Amanda olhava para João de forma um pouco recatada, enquanto ele a olhava de forma provocativa e confiante. Nunca desviava o olhar e sempre sorria. Entre um assunto e outro não demorou para que os dois estivessem se beijando.

Amanda sentia um prazer imenso. Até aquele momento nenhum homem a havia tratado com tanta gentileza e confiança. Eles costumavam evitá-la, talvez por sua beleza estonteante que impressionava e intimidava alguns homens, não João.

O relógio marcava 10:00 e o anúncio de embarque já havia sido feito. Os dois continuavam no Starbucks. Amanda se levantou e disse que precisava ir ao banheiro, João fez a mesma coisa. Em seguida os dois se separaram por um instante.

João comprou uma rosa lindíssima na floricultura do aeroporto e também uma caixa de bombons com licor.

Amanda estava excitada pois aquela era a sua primeira viagem internacional e ela acabara de conhecer um homem fantástico. No banheiro ela retocou a maquiagem e passou mais um pouco de perfume. Sua lingerie era apropriada, mas que loucura, pensou! Teria coragem de sair com aquele homem no primeiro encontro? Bem, nunca havia se deitado com um homem no primeiro encontro, mas com João havia uma química diferente. Talvez poderia ser o início de uma nova vida.

Amanda saiu do banheiro e não encontrou João no saguão. Era muito estranho, pois sua mala ainda estava na mesa do pub e o portão de embarque fecharia daqui vinte minutos. Eles ainda teriam de passar pela alfândega. Esperou por dez minutos e decidiu pegar a maleta de João. Os dois se encontrariam no avião.

Dirigiu-se à fila da alfândega. Havia apenas quatro pessoas na fila: uma família com três pessoas e uma senhora muito obesa. Amanda foi interpelada por dois policiais.

_ Moça, precisamos ver a sua mala. Houve uma acusação anônima.

_ Desculpe-me policiais, mas essa mala não é minha. É de uma pessoa que eu conheci e…

_ Precisamos olhar a mala, agora, senhora!

Amanda entregou a mala aos policiais e para a sua surpresa ela estava cheia de bolinhas de papel e bem no fundo havia dois papelotes de cocaína. A mulher ficou pálida e começou a suar frio dizendo:

_ Essa mala não é minha! Eu conheci um homem hoje. O nome dele é João. Por favor policiais, vocês podem olhar as câmeras. Ele está no mesmo voo que o meu. Pelo amor de Deus!

Os policiais levaram a mulher ao departamento de polícia do aeroporto. O policial Diaz pediu para que o voo B312 fosse interrompido. Uma viatura partiu à pista de pouso para inspecionar o avião e não encontraram ninguém suspeito. Não havia nenhum João.

Na chegada ao aeroporto de Fort Worth em Dallas, a senhora Selma de Carvalho precisava ir ao banheiro. Era muito obesa e mesmo com o calor de 22 graus estava muito bem vestida com roupas pesadas de frio. Dona Selma entrou no banheiro e nunca mais saiu de lá.

Doze horas depois do café prazeroso com Amanda, João estava hospedado no hotel mais luxuoso de Dallas comendo bombons de licor.

Não era uma ação tão prazerosa, mas em algumas horas precisaria inspecionar a própria merda para pegar as cápsulas de heroína que trouxera no estômago.

No Brasil, Amanda foi acusada de tráfico de drogas e pegou cinco anos de cadeia por ser réu primária e o que sobrou de dona Selma foram alguns enchimentos e almofadados no banheiro feminino do aeroporto de Dallas e junto com eles uma rosa bem vermelha.

Luciano Aparecido Marques.

O bolo.

He lived like the beasts of the field.

He was in the midst of men, yet knew no one, loved no one, exciting in the breasts of the peasants only a sort of careless contempt and smoldering hostility.

They nicknamed him “Bell,” because he hung between his two crutches like a church bell between its supports.

The Beggar, Guy de Maupassant

Sr. Manuel pegou provisões para um dia de viagem pela mata e partiu assim que o sol raiou. Foi visitar a irmã, dona Lourdes que morava para além do igarapé da serra, no pé da Colina dos Gaviões. O velho contava com setenta anos e não tinha aquela vitalidade de quando menino. Não era mais aquele que subia o rio Tererê a nado de índio carregando os apetrechos de roceiro na bolsa tiracolo de coro de boi.

Quando jovem fitava as raparigas e derretia corações moles. Foi assim que conquistou e se casou com dona Marquinha com quem tinha cinco filhos, que agora não lhe serviam para nada. Estavam todos na cidade. Mandavam-lhe coisas, mimos, negócio de gente velha. Era o resto dado ao resto que lhe sobrava de vida. Ele queria mais, queria a presença, o calor humano, um pouco de fagulha da vida alheia para aquecer o que restava de sua própria existência.

O solo estava úmido devido à chuva da noite anterior, mas o velho era matuto e já colocara a bota antes mesmo de partir. No caminho cumprimentava todos que via.

No alpendre da casa deixara tudo arrumado de tal modo que parecia que não iria retornar. Alimentou as cachorras Loba e Onça. Soltou os periquitos que voaram dando graças à liberdade outrora injustamente roubada. No caminho, seguido pelas cachorras, passou pela venda de seu Neca, acertou as contas que devia e pediu o seu barco emprestado.

No boteco de seu Antônio tomou uma pinga e jogou no bicho. Havia sonhado com cobra. Mau agouro! Jogou na cobra e na ovelha. Num lapso de segundos associou a jogatina com a serpente maligna e o Cordeiro de Deus. Sabia que era pecador, mas quem não é?

Até chegar ao pé da Colina Estreita, Sr. Manuel precisava terminar a caminhada ao fim da rua e atravessar a rodovia. Quando chegou à última casa em frente à capelinha de Nossa Senhora da Conceição, dona Marta gritou lá do quintal:

_ Seu, Mané. O senhor vai ver a Lourdes?

_ Pretendo, comadre.

_ Então leva uma travessa que eu trouxe da casa dela outro dia.

_ É claro, dona Marta.

Sr. Manuel pegou a travessa, uma forma redonda de bolo, atravessou a rodovia e entrou na mata rasteira e lamacenta.

Quando era viva, dona Marquinha cuidava muito bem de Sr. Manuel. Levava comida para ele na roça e cuidava das feridas de seu corpo e de sua alma. Cozinhava muito bem e o velho matuto gostava muito do feijão tropeiro da esposa, ao passo que havia aprendido a cozinhá-lo antes de perdê-la para o diabetes.

De cada filho ele levava uma lembrança boa: as cantigas de roda em família, o gracejo no olhar das crianças, a inocência dos pequenos, todas as lembranças eram pueris. Da fase adulta dos filhos tinha pouquíssimas lembranças.

Certa vez foi ao circo com a família. Naquela época tinha apenas os três primeiros filhos: Joaquim, João e José, que era o mais velho. Cada criança quis uma bexiga, mas o pai tinha dinheiro para comprar apenas uma, e foi o que fez, com a intenção de que os três brincassem juntos. As crianças fizeram tanta birra que o homem estourou a bexiga e deu um pedaço da borracha que sobrou para cada um. Era a forma prática que o velho tinha de educar os filhos.

Quando ainda moço, na idade de trinta anos resolveu uma rixa antiga do pai com o dono da farmácia. Todas as vezes que precisava ir ao estabelecimento para comprar alguma medicação, o proprietário chamado Oswaldo, dizia a Sr. Manuel que seu pai lhe devia cinco garrotes. Cansado dessa cobrança sem fundamento, o homem pediu para que um empregado deixasse cinco garrotes bonitos na fazenda de Sr. Oswaldo e aproveitou para processá-lo por calúnia e difamação. Ganhou a causa porque a posse do terreno onde a farmácia estava situada era ilegal. Além de perder o estabelecimento, Sr. Oswaldo teve de pagar em dinheiro o valor equivalente a dez garrotes para Sr. Manuel.

Adorava assobiar. Foi entoando muitas melodias doces que Sr. Manuel chegou às margens do rio Tererê. Era por volta das onze horas da manhã. O sol estava a pino e o homem resolveu comer o feijão tropeiro que trouxera na bolsa a tiracolo. Lembrou do irmão Fernando. Eles costumavam pescar juntos naquele mesmo rio até a véspera do dia emblemático do sumiço do irmão. Dizem que Fernando não batia muito bem da cabeça e adentrara no matagal depois de brigar com a namorada e nunca mais foi visto. Seu corpo nunca foi encontrado, por isso os familiares o deram por morto.  A perda foi grande para Sr. Manuel que amava muito esse irmão.

O rio estava um pouco agitado pela chuva da noite anterior. Se fosse há vinte anos, provavelmente o velho atravessaria o rio a nado, porém a prudência bateu forte em seu peito e ele entrou no barco de seu Neca que estava amarrado nas estacas. Atravessou com certa tranqüilidade os cem metros de largura do Tererê.  Amarrou o barco nas estacas do outro lado da margem e continuou o trajeto. Depois de duas horas a pé chegou à fazenda da irmã, vindo da mata.

Dona Lourdes não gostava que o irmão aparecesse assim. Parecia um selvagem, ela dizia para si mesma. Chegara pela mata umas três vezes incluindo o dia do casamento de Lourdes com Haroldo e, depois de tantas desavenças, o irmão não aparecia mais pela mata nem pela estrada. Simplesmente não vinha mais.

Eram cinco irmãos: Moacir, Manuel, Lourdes, Fernando e Antônio. Moacir era o natimorto primogênito que durou cinco segundos e partiu em seguida. Antônio era o segundo. Morrera de sífilis aos quinze anos de idade. Dizem que ele não perdoava nem as galinhas! Manuel era o terceiro filho e Fernando o quarto. Lourdes era a quinta. A caçula era a única mulher. Criada com austeridade, Lourdes parecia de pedra. Cozinhava muito bem. Sua comida era muito parecida com a da mãe, dona Ana. Porém, o que mais Joaquim adorava era o seu bolo de mandioca. Era muito parecido com o de dona Ana, no entanto este era mais seco e doce, enquanto aquele tinha uma textura mais umedecida e desmanchava na boca, além de ser menos adocicado.

Sr. Manuel simplesmente amava o bolo da irmã, principalmente porque lhe fazia lembrar nostalgicamente do tempo em que o dividia com Fernando na escola e nas pescarias do Tererê.

Assim que chegou ao pasto que ficava atrás da casa de dona Lourdes, seu irmão tirou as botas para andar mais rápido e foi pisando a passos largos até o alpendre. Sentiu uma dor aguda no dedão do pé direito. Era uma picada. Com toda a sua experiência, Sr. Manuel achou que fosse alguma serpente, mas ao olhar o ferimento não viu duas fissuras como as habituais mordidas de cobra. Era apenas um pontinho vermelho que ele associou à picada de vespa a qual já estava habituado.

No alpendre havia cinco pessoas vestidas em trajes sociais. Duas mulheres, dois homens e um menino de aproximadamente dez anos. Não reconheceu nenhuma das pessoas.  Acenou para elas tirando o chapéu. Apenas a criança o cumprimentou, os demais ficaram espantados com aquela figura ali parada, parecida com alguma criatura saída de lendas remotas sobre florestas. Um homem calvo aparentando ser o mais velho do grupo chamou dona Lourdes com um berro grave.

A mulher apareceu e reconheceu o irmão. Cumprimentou-o do alpendre mesmo e o fez atravessar o quintal entrando pelos fundos da casa, por onde adentrava quem vinha da roça. A cozinha era o cômodo dos fundos, onde Lourdes recebeu o irmão com frieza. Perguntou como andavam as coisas e pediu desculpas por não chamá-lo para passar a noite na casa, uma vez que havia muitas visitas a quem iria acomodar. Falou de Haroldo que andava meio doente e que estava na cidade comprando mudas para a horta hidropônica.

Sr. Manuel sentiu aquele cheiro peculiar e doce. Era o bolo de mandioca.

_ Você sonha com ele, Lourdes?

_ Manuel, você sabe que Fernando já se foi dessa vida, homem. É claro que eu penso nele de vez em quando, mas eu sei que ele está no céu com a mamãe e o papai.

_ Lourdes, me dá um copo de água, por favor.

_ É claro, Mané. Você tem visto as crianças?

_ Faz tempo que não vão a minha casa, Lourdes. Coisa velha fica abandonada mesmo!

_ Bobagem, Mané. Os meninos trabalham muito na cidade.

_ Você fez bolo de mandioca, Lourdes?

_ Fiz, mas acabou. Estou sem farinha, mas vou mandar Haroldo comprar na venda e assim que eu fizer outro bolo eu  mando alguém deixar na sua casa.

Sr. Manuel sabia que aquela seria mais uma promessa que não se cumpriria. Pegou o copo de água e bebeu de uma só vez. Deixou a travessa de dona Marta sobre a mesa e foi se espreguiçar ao sol enquanto a irmã pediu licença para ir ao banheiro. Sr. Manuel estava em estado febril.

Ouviu um grito forte vindo do alpendre:

_ Saia daí, Sebastião! Tem escorpião neste terreno, menino.

A criança correu assustada, passou por Sr. Manuel, entrou na cozinha e abriu o forno para pegar um pedaço de bolo de mandioca. Havia um bolo e meio distribuídos em duas formas. O menino pegou um pedaço, fechou o fogão e correu para o alpendre.

Sr. Manuel sentiu uma dor intensa, não aquela que corrói a carne, mas a que transpassa a alma. Continuava a suar frio com febre. Por que era tão renegado? Por que ninguém o ouvia?

Pegou sua bolsa a tiracolo de sobre a mesa e partiu para o mato de onde veio. Não olhou para trás, observou apenas o céu onde havia muitas nuvens escuras. Já passava das três horas da tarde e com certeza pegaria chuva pelo caminho. Não planejara uma visita de um dia, mas agora precisava voltar às pressas.

No ombro esquerdo carregava a bolsa a tiracolo e nas mãos as botas. A febre o pegou com tamanho ímpeto que sentiu calafrios e começou a ter alucinações. Pensou ter visto o irmão o seguindo e ficou assustado. A viagem de volta sempre é mais rápida, de modo que o velho chegou ao Tererê, mesmo com febre, em uma hora e meia. O céu à leste estava muito escuro e o rio estava bravo e trazia consigo toras de madeira e resto de coisas diversas.

A porcaria do barco não estava lá, porque o nó fora frouxo demais. Sr. Manuel pensou em Marquinha e nos filhos. Pôs os pés no rio, pois era a sua única chance de sobreviver. Ouviu a voz de Fernando nitidamente pedindo isca para pesca. Entrou no rio e nunca mais saiu de lá.

Luciano Aparecido Marques.

Sonâmbulo

O sono que desce sobre mim, 
O sono mental que desce fisicamente sobre mim, 
O sono universal que desce individualmente sobre mim — 
Esse sono 
Parecerá aos outros o sono de dormir, 
O sono da vontade de dormir, 
O sono de ser sono. 
Mas é mais, mais de dentro, mais de cima: 
E o sono da soma de todas as desilusões, 
É o sono da síntese de todas as desesperanças, 
É o sono de haver mundo comigo lá dentro 
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso. 

O sono, Alberto Caeiro

Bartolomeu Amaro Novaes era desses sujeitos que acreditam na força do trabalho como filosofia de vida. A sua própria força era pautada em objetivos e metas até o dia do acidente. 

Trabalhava mais ou menos das 5:00 da manhã às 20:00 da noite. Também  pudera, era gerente das cinco lojas de franquia das camisas Flokos D’ouro que ajudara a fundar junto com o senhor Tanaka. Bartolomeu admirava muito os japoneses. Sempre era possível ouvi-lo dizendo que aquilo que era povo, organizado, inteligente, rico e outros adjetivos mais.
          Estudara  administração  na Universidade de São Paulo e chegara ao posto de presidente do grêmio acadêmico, e como adorava títulos! Todas as vezes que lia algum artigo no diário oficial nomeando um fulano de tal à supervisor honorário de contas públicas ou um sicrano que acabara de ser premiado com o título de supervisor de direitos em assuntos internacionais, sempre pensava: 

“_ Um dia eu chego a ser alguém importante assim!”
          Sua família se reduzia à mãe, dona Maria e a um meio irmão, Josafá, que fora adotado quando Bartolomeu contava com cinco boas primaveras.

À mãe sobrava quatro horas mensais de visitação, já que Bartolomeu não tinha tempo para vê-la.  Ao meio irmão costumava enviar mensagens por redes sociais, veículo pelo qual esbanjava suas fotos de bens materiais e locais por onde passava em suas viagens de estudos e negócios.
          O “Senhor Certinho”, como era chamado covardemente pelas costas por seus colegas de trabalho, não bebia, não fumava, não saía para passear e não tinha namorada. Seu único vício eram as redes sociais, e seu maior mal, o sonambulismo. Certa vez acordou de madrugada e saiu de cueca até a portaria do condomínio onde morava. Seu Sebastião, o guarda noturno, levou um susto do inferno quando viu o sujeito mirrado com sua cueca preta e olhar de zumbi:

“_Tem cartas para mim?”

Sem saber o que dizer o guarda apenas respondeu direto e certeiro:

_Não Sr. Bartolomeu! Vá dormir filho!

Bartolomeu virou as costas e no outro dia acordou com a porta da casa aberta e dois prêmios: o apelido de “Assombração” e um resfriado muito forte, por isso não foi trabalhar. Ligou para o sócio majoritário e também chefe:
_Seu Tanaka, estou sem condições de trabalho hoje. Vou ao médico, tudo bem?


Escutou a resposta de seu Tanaka como se fosse uma encíclica papal e se dirigiu ao hospital. No fim da mesma semana recebeu uma visita inesperada, seu irmão Josafá, que ao invés de encontrar o irmão, encontrou uma aglomeração de curiosos em frente à casa de Bartolomeu. Havia bombeiros, policiais e muitos curiosos.

Josafá perguntou em meio ao espanto o que havia acontecido e um sujeito bem engomado respondeu:

_ Senhor, o “Assombração” se afogou na piscina essa madrugada e morreu.


Após cinco dias do acontecido, dona Maria faleceu de desgosto, Josafá, o meio irmão herdou toda a fortuna da família e senhor Tanaka contratou outro gerente de franquias, que trabalhava muito e ganhava a metade do salário de Bartolomeu

Luciano Aparecido Marques

Um dedinho de prosa – parte 2

Perguntas

“Diz-me, porque não nasci igual aos outros,
sem dúvidas,
sem desejos de impossível?
E é isso que me traz sempre desvairada,
incompatível com a vida que toda a gente vive.”

Florbela Espanca

Meu sobrinho Ricardo veio passar uns dias conosco em São Paulo. Quatro cômodos e uma mini lavanderia que eu não considerava um cômodo, era o espaço confinado que o pobre teria para brincar longe dos pais. Logo quando o garoto chegou já notei um ar de desconfiança e medo quando fui pegá-lo pelo braço e o bichinho se esquivou com um movimento abrupto, como se esperasse um solavanco ou pancada na cabeça.

_ Que é isso Ricardo, está com medo de quê?

Seu olhar me lembrava o pai, Rubião das Neves. Nome absurdo para alguém que entre um gole e outro trabalha na roça sob um calor escaldante, especialmente no verão mineiro de Pouso Alegre.

No elevador, notei que Ricardo permaneceu os dez andares assustado e acuado em um canto – não era apenas um confinamento geográfico, mas um cárcere psicológico, da alma. Eu não lidava muito bem com crianças, elas não me agradavam e eu contribuía na mesma amarga indiferença. Arrisquei:

_ Como vai a Rosa Maria, filho.

_ Minha mãe vai bem.

_ E o Rubião?

_ Eu não sei, não.

Chegamos. Joelma era só mimos com o menino. Dizia que o garoto era a cara do pai – e parecia mesmo. Era por volta das dez horas quando perguntou se o menino queria comer. Diabos! É claro que o menino iria querer.

_ Quero não, tia. Eu já comi na rodoviária. Quero tomar banho.

O menino falava, mas não olhava nos olhos. Estranhamente fitava a porta. Após alguns minutos de conversa entre o menino e minha esposa, presenciei uma cena perturbadora. Joelma se ofereceu para pegar a mala do menino, mas levou um tabefe na mão. Sim, um tabefe, mas não um tapinha de leve, foi um verdadeiro tabefe daqueles de virar figurinha na mesa.

_ Ai, Ricardo! Que isso, menino?! Joelma falou em tom lacrimoso. Não esperava aquela reação.

_O homem é quem leva a mala, tia.

Por fim, minha esposa achou graça:

_ Mas é o Rubião escrito!

Pairou um silêncio de aproximadamente trinta segundos que pareceram um mês. Fiquei muito irritado, com vontade de dar uns cascudos no moleque. Foi quando quebrei o silêncio e disse autoritário:

_ Ricardo, pegue suas coisas e vai tomar banho logo!

O menino não respondeu verbalmente, mas de prontidão pegou a mochila e de um salto entrou no banheiro. Durante o banho do menino houve um debate entre minha esposa e eu acerca do temperamento do menino. Era um absurdo um menino de doze anos querer mandar em alguma coisa. Um moleque que nem tinha saído do ovo ainda! Foi quase uma tese de doutorado em argumentações. A conclusão de minha esposa era de que o menino sentia saudade dos pais. Bobagem!

Minha cozinha era simples. Havia um fogão pequeno embutido na pia, feita sob medida e de mármore, uma geladeira média e branca e uma fruteira. Ao lado da fruteira havia uma adega dessas que pedimos na lista de casamento, mas nunca ganhamos. No entanto, tio Antônio resolveu me presentear com este artefato, talvez porque fosse adepto a tomar uma branquinha de vez em quando. Enfim, a mesa de jantar ficava na sala, que era mais ampla, afinal um apartamento, como dizem por aqui, é na verdade um “aperta mento”.

Já eram quase onze horas quando Ricardo se apresentou na sala, agora trocado e perfumado – a casca era limpa e calma, mas a alma ainda continuava misteriosamente encarcerada e turva.

_ Tio, você não trabalha?

Que pergunta mais absurda, é claro que eu trabalhava e não devia explicações a um pirralho, mas mesmo assim expliquei que estava de férias. Enquanto conversávamos na sala, Joelma preparava o almoço. Camarão na moranga, meu prato favorito. Eu não entendo porque ela só preparava minha iguaria favorita quando havia visitas. Parece que todos eram mais importantes do que eu.

_ Meninos, a mesa já está posta. Vamos comer?

Na mesa o menino se embestou a perguntar.

_Tio, você não bebe? Quer que eu pegue a garrafa na adega?

_ Não, obrigado. Como você sabe que temos uma adega.

_ Eu reparei quando cheguei.

_ Tia, você não põe a comida do tio?

_ Ele já é grande e se vira sozinho.

_ Não concordo, é a mulher que tem de fazer isso.

Sem saber o que falar, minha esposa olhou para mim como se esperasse uma defesa, foi então que eu reparei que a cor da mesa tinha o mesmo tom castanho de seus olhos que também pareciam com os de Ricardo. Cheguei a conclusão de que o que une a família é a cor e o brilho dos olhos.

_ Cada um coloca a sua comida se puder. Respondi após alguns segundos.

Retirei-me da presença do menino com a desculpa de alimentar o gato, Sultão. Demorei quase vinte minutos para abrir o saco de ração do gato e colocá-lo em seu pote. Também providenciei água e troquei a areia de suas fezes. Costumava fazer tudo isso em dez minutos, porém naquela ocasião levei aproximadamente meia hora, calculando o tempo de o menino terminar de comer e sair da mesa, mas foi inútil. Ao voltar encontrei o menino fazendo mais perguntas e Joelma com aquele olhar de reprovação que eu reconhecia há quilômetros.

Lembro-me da primeira vez que eu vira o menino. Uma coisinha mirrada que parecia que não iria vingar. Foi no natal de 2000. Era virada do milênio e estávamos na praça central de Pouso Alegre. Esperávamos os fogos de artifício. Alguns achavam que o mundo iria acabar, outros tinham certeza disso, como Rosa Maria.

Os planos, a faculdade, a viagem para a Europa, a gravidez indesejada de Ricardo anulavam todos aqueles sonhos, mas ainda deixava o amor materno.

Rubião era só braços e tatuagens. Havia aquele dragão que Rosa dizia ser coisa feia.

_ Mas você cala essa boca que das minhas coisas cuido eu! Resmungava o bruto na frente de todos e do próprio recém nascido, herdeiro do abandono: Ricardo Rosa Neves.

Depois do jantar, outra pergunta:

_ Tio, você gosta de seu nome?

_ Sim menino, por que a pergunta?

_ Eu odeio o meu, parece nome de mulher.

Expliquei que nome era coisa de família e que no futuro ele poderia trocar se quisesse. Joelma me repreendeu:

_ Não encoraje o menino com suas bobagens, criatura!

Após o almoço, passamos o dia tranqüilos e a diversão do garoto era acariciar o Sultão. Era um siamês preto muito bonito e bem cuidado, o filho que eu não podia nem queria ter. Vivia sujando a casa com pêlos e sempre recebia em troca afagos e carinhos. Quanto a mim, se ficasse sem camisa por um instante era excomungado por Joelma com impropérios, dos quais o mais poético era:

_ Não vê que a casa enche de pêlos?! Ponha uma camiseta, homem!

A noite chegou. Para mim a hora mais bela do dia. A hora do silêncio, do aconchego, da paz merecida. Eu costumava dormir às duas horas da manhã, mas naquela ocasião, fui deitar-me antes de todos. Passei pelo quarto destinado ao filho que nunca teríamos e vi que o colchão do meu sobrinho já estava pronto para que ele dormisse.  Deixei Sultão, minha esposa e o menino na sala assistindo televisão, fui ao meu quarto e atirei-me sobre cama.

Tive um sonho ruim – pessoas sendo perseguidas por um louco com um martelo na mão. Elas gritavam tanto que eu acordei. Joelma ao meu lado dormia tão profundamente que parecia uma defunta. Então, ouvi um grito de verdade vindo do quarto onde estava Ricardo. Corri e encontrei a cena a seguir: a janela estava aberta, uma garoa fina entrava pelo quarto e Ricardo estava de pé olhando para fora. Acendi a luz e chamei o garoto. Percebi aquele mesmo olhar de alma encarcerada da cor da mesa da cozinha

_ O que você está fazendo? São três horas da manhã!

Olhei para suas mãos, uma delas estava sangrando com um corte profundo que deslizava do antebraço ao pulso. Era uma linha reta. Ele olhou para mim e disse: _Tio, o Sultão caiu. Eu tentei segurar, mas ele caiu.

Luciano Aparecido Marques

Um dedinho de prosa.

Será que a verdade é inexorável?

Verdade

“O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são e das coisas que não são, enquanto não são”.

Protágoras

Bonifácio não era um nome tão comum, principalmente no início do século XXI, quando a moda eram nomes que figuravam na tela dos cinemas ou em novelas e séries de TV.

Pois bem, o fato é que Bonifácio era um homem casado e de meia idade com 40 anos. Silvia era a esposa de quem gostava e ao mesmo tempo desconfiava de adultério, principalmente depois que ela começou a terapia com aquele tal de doutor Ferraz.

Sua esposa tinha 38 anos de idade e há tempos sofria de certo colapso nervoso. Moravam na cidade de São Paulo. O clima seco do outono sul-americano sempre a afetava, pois era alérgica à poeira e sofria de asma. Mas, voltemos ao doutor Ferraz.

Bonifácio o via como um galã de cinema. Seus traços lembravam muito Richard Gere em seu Outono em Nova Iorque, mas o que mais o intrigava era o fato de Silvia estar mais feliz desde que começara o tratamento com o tal doutor. O que a fizera mudar? Estaria ela tendo um caso com esse psiquiatra?

Silvia andava menos submissa, se vestia melhor, se maquiava antes de sair e até comprou um perfume importado. Era isso que mais incomodava Bonifácio. Ele sentia que o tal doutor estava fazendo sua esposa se perder, se desvirtuar.

Precisava falar com esse calhorda.

Bonifácio conhecera Dr. Ferraz outro dia quando deixou a esposa na clínica, logo no início do tratamento. Desde este dia sentia-se culpado por ter negado fazer tantas coisas com a esposa. Não quisera ter filhos, porque dizia que eles atrapalhariam em seus planos e estudos. Fizera a esposa escolher entre uma oportunidade de emprego maravilhosa em uma multinacional e ele, simplesmente porque Silvia teria de trabalhar de uniforme, um vestido bem discreto. A pobre ingênua o escolhera.

Somente agora Bonifácio percebia o porquê de sua esposa ter ficado doente.  Era formada em contabilidade, falava inglês fluente e por fim acabou trabalhando em um mercadinho de vila como atendente de caixa.

Ambos estavam com quarenta anos, no entanto, devido à ganância desmedida, Bonifácio parecia bem mais velho. Estava bem acima do peso, enquanto Silvia mantinha seu corpo esbelto, com cintura fina e seios fartos. Parecia uma mulher de trinta anos, todavia passara alguns anos descuidada sem aquele asseio vaidoso de mulher. Logo, evitara maquiagem e jóias por um bom tempo até começar o tratamento com doutor Ferraz.

Bonifácio tomou a decisão na segunda-feira de manhã. Levou Silvia à clínica, mas desta vez entrou no estacionamento com o carro. A esposa o fitou surpresa. Ele esperou Silvia descer do carro, pegou as chaves e a acompanhou até a entrada da clínica. Doutor Ferraz estava no consultório em atendimento.

A recepção estava vazia exceto por Cláudia, a secretária. Havia algumas cadeiras, uma cesta com revistas para entreter os pacientes e uma escrivaninha grande de madeira de carvalho de onde a secretária os recebeu com um bom dia entusiástico. Silvia retribuiu com a mesma energia, mas Bonifácio apenas acenou com a cabeça e com a cara fechada.

Silvia estava sem jeito, pois não sabia o que o marido estava fazendo ali. Arriscou uma pergunta em tom sussurrante:

_ Não vai trabalhar hoje, Boni?

_ Não, hoje eu vou resolver uma coisa de uma vez por todas!

_ Boni, não vai fazer nenhum escândalo, porque…

_ Fique quieta! Mais tarde eu resolvo com você. Hoje a minha conversa é com esse doutorzinho.

Neste ínterim, enquanto estavam conversando, doutor Ferraz saiu do consultório com um paciente de quem se despediu. Vestia seu jaleco, calça jeans, sapatos pretos e blusa de lã. Podia-se sentir o odor adocicado de seu perfume a quilômetros de distância. De forma sutil e elegante o doutor disse:

_ Bom dia, dona Silvia. Como vai a senhora?

_ Tudo bem doutor.

_ Bom dia, Sr. Bonifácio. O senhor está bem? O doutor apertou a mão de Bonifácio bem forte e confiante, depois disse:

_ Vamos, Silvia? Você é a próxima.

No momento em que Silvia levantou-se para segui-lo, Bonifácio também o fez. No entanto, foi advertido:

_ Sr. Bonifácio, o senhor vem depois de dona Silvia. Eu já estava lhe esperando.

Bonifácio não teve reação e sentou-se obedecendo ao médico. Pegou uma revista e fingiu que estava lendo. Na verdade, estava persuadindo a si mesmo, pensando que seria melhor falar com o bastardo a sós.

Após cinqüenta minutos de espera entediante, Silvia saiu da sala sorrindo e doutor Ferraz ficou no local de onde o chamou:

_ Bonifácio, pode entrar!

Era um consultório convencional, com uma escrivaninha, uma estante de livros atrás da cadeira do médico e um armário repleto de fotos do psiquiatra e de sua família. Eram fotos de sua esposa e filhos. Bonifácio sentou-se e antes que pudesse falar qualquer coisa o médico lhe disse:

_ Já sei o porquê você está aqui. Em primeiro lugar, meu senhor eu sou muito bem casado e amo minha esposa e meus filhos. Embora seja um homem da ciência, sou cristão e respeito a minha fé. Preciso dizer algumas palavras, porque o senhor não é o primeiro marido a vir aqui com ciúmes. Ah, e antes que o senhor me pergunte como eu sei essas coisas ou queira negá-las, saiba que sou psiquiatra, psicanalista e hipnoterapeuta há vinte anos, de modo que eu conheço um homem pela esposa e vice-versa.

Bonifácio não teve reação a não ser ouvi-lo. O doutor continuou a falar:

_ Tolo daquele, que tendo visão enxerga a realidade através dos olhos de outras pessoas e tendo clareza se deixa levar por ideias alheias. É preciso ser juiz de sua própria vida. É preciso regê-la com sabedoria para que os efeitos colaterais tenham como causa seus próprios erros, não os de outros. Essa era a sua esposa antes de passar na consulta comigo, regida pelo senhor.

Bonifácio ouvia em transe.

_ As leis naturais não fazem acepção de pessoas, não escolhem credo, raça, língua ou qualquer outro tipo de intervenção sócio-cultural, de modo que, se um mendigo se jogar de uma ponte e o próprio papa o fizer, nenhum deles será arrebatado ao céu, pois a gravidade é imperativa e imparcial. No entanto, as leis humanas escritas em papéis, ou entalhadas em pedras servem, em sua maioria, para compensar a perda de alguns favorecendo a si mesmos e tirando a liberdade de outros, reduzindo-os a meros escravos. O ser humano se corrompeu de tal modo que é preciso ter uma lei que o proíba de tirar a vida de outro ser humano. Ora, não vemos leões criarem leis para obrigar as gazelas a servi-los.

_ Agora, senhor, escute com muita atenção. Esposa implica servidão e mulher liberdade. Ser esposa dá trabalho, pois é quase um emprego no qual se deve servir ao patrão bufão que muitas vezes não merece seu carinho. Ser mulher implica ter atenção, carinho e troca de confidências amorosas com o parceiro. Ser homem é conquistar diariamente o amor da mulher por meio da química corporal e sensorial, enquanto ser marido é fazer usufruto do prazer, muitas vezes, sem o merecê-lo. Ser homem é ter autoconfiança e charme suficientes para atrair a mulher de modo natural, enquanto o marido usurpa desse bem pensando que a imposição da lei humana deverá assegurar-lhe o direito de usufruir do prazer vindo da esposa.

_ Agora, o senhor vai virar as costas e sair da minha sala e a partir de hoje vai tratar a sua esposa como mulher e não como objeto. Na semana que vem, se o senhor sentir vontade pode voltar, só então eu lhe escutarei.

Bonifácio saiu da sala atônito, agradeceu ao médico e começou um tratamento no mês seguinte.

MARQUES, Luciano Aparecido, 1981. Contos Nebulosos. Amazon, SP. 2017.